2010 sem dúvida alguma foi um ano atípico em matéria de música. Serei atípico então e começarei a minha retrospectiva particular pelas músicas lançadas em 2010 (no GaGa, ok?) que acho que deram a cara de 2010. E qual foi essa cara? 2010 foi, em minha opinião, o melhor ano musical desde que comecei a consumir música (back in 2000) e o melhor ano em matéria de música, imagino eu, desde 1998. Heróis antigos da música voltaram de forma triunfal, novidades maravilhosas pipocaram e, mais importante de tudo, a própria industria musical, ciente do estado semi-comatoso em que se encontra atualmente, atirou para todos os lados, abraçando como nunca os talentos que despontaram à margem dessa industria, sinal claro de que a industria estava ciente de que o seu braço não alcançava mais as áreas daqueles que não tem como parte importante de sua vida o amor por essa arte. Fosse num maior envolvimento do artista com a produção de seu material, fosse numa reavivada dentro do mercado da apreciação da estética do álbum como formato, 2010 tem a faca e o queijo na mão para se tornar no futuro um ano pivotal dentro da cultura musical.
Musicalmente falando, o tom de saudosismo foi imperativo esse ano. Dentre as faixas que mais se destacaram esse ano foi possível notar toques de 60′s country, 70 AC, 80′s synth, old funk, lo-fi, old-school hip hop, traditional techno e puro e simples pop, seja através da execução nua e crua das influencias antigas ou da tradução das antigas técnicas aos novos formatos. A popularização do termo chillwave dentro da blogosfera foi um sinal claro disso. Mas a única conclusão que posso tomar disso é que 2010 foi um ano onde uma única trend não fará justiça ao escopo, já que a música de 2010 não se preocupou em formar uma identidade tanto quanto se preocupou em ser boa pra caralho. E a menos que o termo (bem coringa por sinal) chillwave vingue dentro da cultura, 2010 será provavelmente conhecido como um ano onde os únicos links entre as obras mais marcantes foram o preciosismo técnico, que elevou a qualidade dos trabalhos a níveis incrivelmente altos comparado aos anos anteriores, e o aparente respeito/culto/amor à história da música na era do rock das bandas que surgiram ou de bandas já consagradas que ainda moldam o som de nossa geração.
Comecemos então pelas faixas que mereceram destaque, porém não figuraram no top:
10 Mile Stereo – Beach House
Norway – Beach House
Boyfriend – Best Coast
Liquor Store Blues – Bruno Mars
Odessa – Caribou
Celestica – Crystal Castles
Baptism – Crystal Castles
Take Me Over – Cut Copy
Desire Lines – Deerhunter
Earthquakes – Deerhunter
Guns and Horses – Ellie Goulding
Locked Inside – Janelle Monae
Kiss That Grrrl – Kate Nash
Teenage Dream – Katy Perry
Brave – Kelis
Saturday Come Slow – Massive Attack
To The Lighthouse (Millionyoung mix) – Memoryhouse
Afraid of Everyone – The National
Heart in Your Heartbreak – The Pains of Being Pure at Heart
Soldier of Love – Sade
Sale el Sol – Shakira
Too Much – Sufjan Stevens
Speak Now – Taylor Swift
Cousins – Vampire Weekend
2080 – Yeasayer
Top 30 (10 a mais que ano passado)
30- XXXO – M.I.A.
Foi um ano PAVOROSO para essa que é uma das artistas mais promissoras a surgir nos últimos 10 anos, onde, após o sucesso crossover de sua Paper Planes, encontrou em 2010 uma verdadeira catástrofe publicitária, dando tiro atrás de tiro no pé e incapaz até mesmo de lançar um material que fizesse jus à tamanho suicídio social. Mas uma artista de tamanho talento não passa incólume por uma fase negro e, mesmo em seu pior momento, M.I.A. foi capaz de dar um alento à seus fãs na forma da música mais poderosa para o dancefloor, com graves pesados pulsando ritmicamente numa batida até limpa comparada com o caos dos singles antigos da cingalesa, mas que por isso mesmo ganham em força pelo modo direto de trazerem a batida, além da voz blasé de M.I.A., um tom que sentia falta desde Galang. XXXO também ganha espaço por, num ano de músicas pensadas sempre com um olho no passado, ter sido uma música de seu tempo, um momento ainda em sintonia com o hedonismo, linkando bem tais ideias atuais com o dancefloor poderoso da cingalesa, que não encontra paralelo com nenhuma de suas contemporâneas em matéria de inventividade e capacidade de colocar as pessoas pra dançar.
29- What’s My Name – Rihanna
Primeiro momento climão da lista, gente. Mas a ideia por trás dessa lista é pensar no que foi o som de 2010 e sinceramente, não importa se foi produtor fulano, acampamento de produtor, se a artista mal a voz colocou na confecção, fato é que dentro da industria, mais do que nunca inclusive, tem existido um choque da antiga relação nociva de criação em atacado de estrelas com a ideia de personalização, onde essa criação respeita a imagem singular de cada estrela ao invés de fixá-las num modelo às vezes tão genérico e artificial que nem uma segunda atenção merecia. E foi aproveitando a persona de fêmea alfa de Rihanna construída após o escândalo de violência doméstica com seu ex e suas origens caribenhas na construção de uma faixa que flerta com o chillwave (vocês verão muito esse nome na lista desse ano) e o dancehall que fez o nome dela despontar pra começo de conversa que Rihanna cunhou o hit mais singular desde os singles de Justin Timberlake há 3 ou 4 anos atrás. Com o adendo de ter feito isso com uma música que tem a cara da própria, cimentando ainda mais a imagem singular da mesma via música, algo que no pop é mais importante que picos em charts para manter uma carreira.
28- None of Dem (feat. Röyksopp) – Robyn
Röyksopp é um daqueles projetos que costuma fazer nome, criar culto ao redor, mas infelizmente jamais ver chegar o real reconhecimento que mereciam. Senão vejamos essa música, lançada pouco antes do primeiro single do Body Talk pt 1, None Of Dem foi de longe a melhor coisa que Robyn havia lançado até então. Não apenas pela letra, mais fierce que qualquer coisa no catálogo de qualquer contemporânea dela e ainda a ser topada, mas principalmente pelo instrumental nada menos que perfeito, começando devagar e se revelando em etapas, culminando em uma sucessão de batidas hipnóticas sob uma base disco que soam meio espaciais, tão boas que até mesmo a própria Robyn foi esperta o suficiente pra deixar apenas o instrumental carregar a música. O resultado? Reconhecimento à Robyn como uma das artistas do ano, mas nem mesmo pela blogosfera vi algum levantamento do trabalho do duo, que sem dúvida foi um divisor de águas na carreira da moça. Ao menos reconhecimento dos colegas de profissão eles parecem ter…
27- Loca – Shakira
Eis aqui o momento mais tenso da formação dessa lista. Haters gonna hate, mas fato é que Shakira é um exemplo de artista mainstream. Artista mesmo, já que mesmo com uso de sua imagem hipersexualizada, Shakira mantém um perfil baixo, longe de escândalos ou de autopromoção por suas virtudes pessoais, preferindo deixar que sua música mantenha seu posto dentro da popsfera de única artista pop global da atualidade. Não que não existam outras artistas que façam sucesso global, mas Shakira é aquela que coloca em suas obras os sons que entra em contato. Como ao se apaixonar pelos ritmos caribenhos esse ano, ressurgindo após o fiasco da tentativa de um álbum de pop pop apenas. Loca tem marcação clara e forte, sendo uma das faixas mais dançantes lançadas no mainstream, com o adendo de acenar para ritmos que, não fossem cantados por Shakira, provavelmente jamais veriam a luz do reconhecimento global, tecidos com cautela dentro de uma produção tipicamente pop e com os vocais mais sexys da carreira de Shakira (foco no “Dios Mio”), sem nunca perder o fôlego. Um dos melhores retornos à forma dos últimos tempos.
26- On Melancholy Hill – Gorillaz
Ainda existe alguém no mundo que não tenha se rendido ao Gorillaz? Após conquistar o mainstream com o primeiro álbum, calar a boca dos críticos com o segundo, vieram esse ano com um álbum infinitamente mais acessível que o primeiro. E é na faixa mais pop da carreira da banda que Damon Albarn parece ter encontrado pela primeira vez desde seu trabalho com o Blur em meados dos anos 90, aclamação unânime. On Melancholy Hill é uma faixa que exala retrô com batidinhas pontuais e instrumentais sampleados e usados de forma aparentemente descuidada, dando um ar quase infantil à faixa e uma imagética na letra que mais parece randomico. Passa longe do preciosismo que as faixas do Demon Days possuiam. Mas possui mais hooks que álbuns inteiros, sendo de longe a faixa mais pop que o Gorillaz já fez, o que significa que é prazer imediato com a grife Damon Albarn de qualidade. E não é preciso maior recomendação que isso.
25- Punching In a Dream – The Naked and Famous
Essa aqui vai demandar nova dose de honestidade: não conheci a banda em 2010, mas sim em 2011. Ainda bem que problemas me impediram de compilar essa lista antes de entrar em contato com a música desse grupo, pois seria uma lista sem dúvida menos justa se não incluísse essa música, claramente filha do som do Passion Pit mas com suas próprias virtudes, como a presença de um vocal feminino para adocicar ainda mais a parede de som que aparece no começo sem introdução e segue até o final da música sem alíviar, sendo lúdica o suficiente para relaxar ao mesmo tempo em que conserva um apego forte às pistas de dança, podendo ainda ser vista como plausível em grandes eventos. E é essa capacidade que essa música tem de fundir-se tão bem com o intimismo e apelar tão bem com o grandioso que torna ela única dentro do seu filão.
24- Faded High – Gayngs
Um dos projetos mais inusitados do ano, Gayngs reuniu mais de 20 pessoas de bandas diferentes aparentemente just for the hell of it, já que é praticamente (e aqui cabe bem o sentido literal dessa palavra) impossível reunir toda essa galera pra mandar um som, posto que eles tinham que encontrar uma brecha na agenda de todos os envolvidos com seus projetos paralelos. E embora o próprio resultado final tenha ficado obviamente descuidado, ao ouvir uma faixa como Faded High, que presta homenagem clara ao som oitentista radiofônico com seu tecladinho toscamente construído e linhas de guitarras new wave-y enquanto fragmenta essa mesma perspectiva sobrepondo vocais e mergulhando a melodia dentro de uma estrutura instrumental hipnótica de gordos 7:29, você realmente espera que esse projeto não seja largado de mão e quem sabe seja ampliado em um futuro próximo.
23- Acapella – Kelis
Numa das viradas mais bem sucedidas em matéria de som que vi desde que comecei a acompanhar música, Kelis ressurgiu de um limbo produtivo de anos lançando essa música numa parceria com David Guetta no que, no fim das contas, revelou-se o melhor trabalho do Guetta de muito longe comparado com as farofas maximals que ele costuma criar. Abandonando o estilo club stomper e preocupando-se mais com com detalhes, Guetta fez aqui uma música eletrônica tradicionalissíma, centrada nas batidas, com camadas e camadas sonoras revelando-se e fundindo-se enquanto Kelis, uma das mais talentosas intérpretes da nova geração, canta uma música de metalinguagem maravilhosa para sua filha, criando uma música que destrói nas pistas e enternece quem escuta.
22- Monster – Kanye West
Power pode ter sido uma daquelas faixas que em teoria chamaria a atenção pela ousadia do trabalho e tudo, mas após o backslash de Kanye, lançar uma faixa chamada Monster, chamar Jay-Z APENAS para engrossar o caldo e deixar que uma novata que até então nem cd tinha em seu nome roubar a cena numa das produções mais cruas do hip hop desde Simon Says do Pharoahe Monch foi tudo que o mundo realmente precisava ouvir para calar a boca e aceitar que mesmo sendo às vezes um completo babaca, com esse talento todo Kanye tem passe livre para ser o quão babaca precisar ser.
21- All I Want – LCD Soundsystem
Definindo: Heroes do David Bowie adaptada pelo LCD Soudsystem num dos melhores e mais audaciosos usos de uma música antiga ever.
20- Modern Man – Arcade Fire
Sem dúvida essa é a faixa mais deglutível dentro de todo o The Suburbs. Apesar da estrutura quebrada, o violão, a guitarra e a bateria com roupagem Springsteen ajudam numa assimilação imediata da faixa, que contém os vocais mais contidos de Win na carreira à exceção de Neon Bible. Somente por isso, por ter o instrumental mais gentil da carreira da banda, que costuma tender ao grandioso sem dó, Modern Man já seria uma pérola digna de nota. Mas a principal força da faixa mesmo é a letra, que em uma frase e com seu título repetido o tempo todo, funciona como o verdadeiro manual de instruções ao álbum da banda. Pois nenhuma frase resume melhor o feeling do cd, que foi o melhor do ano, que “Maybe when you’re older you will understand/Why you don’t feel right/Why you can’t sleep at night now”.
19- I Am Not A Robot – Marina and The Diamonds
E eis aqui um exemplo do que um arroz com feijão musical é capaz de atingir quando vem ancorado com alguém que demonstra ter talento real e amor por música pop. A Back In The Van desse ano (ver retrospectiva de 2008), construída à base de um piano, é uma música pop nos moldes mais tradicionais possíveis: Verso – Ponte – Refrão, um interludizinho ali antes de entrar no refrão final e a música acabar. Sendo a mais straightfoward inclusive do cd, I Am Not A Robot ganha justamento por isso, por abraçar o lado pop da persona de Marina e despir-se por completo de pretensão, tendo os melhores vocais do álbum e uma letra sem firulas, mesmo que deliciosamente ácida. E é justamente nesse momento especial do álbum em que ela esteve menos preocupada em provar pontos e apenas entregou a música da melhor forma possível, sem sacrificar o imediatismo da faixa em prol de momentos de “provas de talento enquanto artista”, que Marina fez aquela que provavelmente será sua faixa assinatura e a melhor faixa pop mainstream do ano de 2010.
18- Crazy For You – Best Coast
Ooooh, Bethany, espero que as pessoas consigam ver, assim como eu, porquê com pérolas como essa o seu álbum foi o segundo melhor debut desse ano. Condensados em apenas 1:50 existe aqui o que, venhamos e convenhamos, representa tudo que há de melhor no rock tipicamente norte americano. Guitarrinhas sem vergonha, uma quedinha pro lo-fi, letras de amor adolescente rasgadas, harmonias vocais, Crazy For You parece tradicional pra caralho. E realmente é. Imaginem um filho de um caso de amor dos Beach Boys não experimentais com um Pavement do primeiro álbum cantado por uma mulher que não tem vergonha de metralhar o ouvinte com versos rasgados como “Want to hate you but then I kiss you/Want to kill you but then I’d miss you”, tudo isso de forma tão in your face que transborda despretensiosismo e faz, na medida certa, o que música deveria fazer: ser boa pra caralho!
17- Indestructible – Robyn
Durante o projeto Body Talk fomos apresentados à versão acústica dessa faixa naquela que considero a parte mais fraca do projeto, a parte 2, já sabendo que viria uma versão com o trato Robyn como havia sido feito com Hang With Me. A diferença é que, ao saber que viria uma versão, digamos, turbinada da música, foi nos dado um tempo ainda para imaginar o que viria ou simplesmente para curtir a versão acústica que já era incrível. Mesmo assim, quando saiu a versão do álbum o choque foi brutal. O novo instrumental veio simplista, flertando com o techno mais tradicional sem contudo abrir mão da opulência da faixa acústica, traduzindo inclusive o magnífico trabalho de cordas da versão acústica com a ajuda dos sintetizadores, criando uma cascata glacial de batidas enérgicas e urgentes que vem em ondas e impelem o ouvinte a ouvir num loop, já que o começo casa perfeitamente com o final da faixa. Junte à isso a voz sempre recompensadora de Robyn interpretando uma letra de ambiguidade sexual poderosa, já que brinca com a ideia de dança e sexo como desde Madonna não via ser feito dentro da música pop e temos, sem dúvida a segunda melhor música pop do ano.
16- Easy – Joanna Newsom
Quando ouço sobre um cd da Joanna Newsom meu mundo fica mais feliz. Ninguém atualmente faz música como essa mulher, o que, ao mesmo tempo que detona a capacidade dela de se tornar uma artista com um público maior, ao menos não deixam a menor dúvida de que quando ela grava algo a intenção dela está relacionado menos à necessidades pessoais e mais ao puro e simples impulso artístico. Senão, vejamos essa highlight que abre o novo (e colossal) álbum da moça: Harpista de vocação, liricista por dom e vocalista por talento, Easy constrói ao redor da poesia (já que não tem outra forma de chamar essa letra maravilhosa, minha preferida do ano) uma melodia sempre dinâmica que trabalha com as inflexões da moça, uma vocalista primorosa, para criar um clima agradavelmente dramático, pontuando o ultimato da poesia ,que a moça declama com exercícios vocais que fariam inveja à muitas cantoras de treinamento lírico, e criando uma das mais atemporais e mais impactantes declarações de amor que já foram gravadas. Música como não se vê hoje em dia nem nas melhores discografias. E é bom relembrar um pouco do prazer da música pela música em si.
15- White Sky – Vampire Weekend
White Sky é uma faixa quintiessencial Vampire Weekend. O sabor artificial áfrica no rock britânico está aqui. As letras de pura imagética em forma de narrativa também. A delicadeza dos arranjos instrumentais que parecem fruto de horas de sessão para acertarem milimetricamente cada nota também. Os vocais adolescentes e afetados de Ezra também. Então porquê essa faixa, que é sem dúvida a mais apegada ao som que deu notoriedade à banda no meio de tantas viradas de rumo colocadas dentro do Contra, é a que escolhi? Porquê amadurecimento tem seus bônus, e foi apegando-se aos seus pontos mais reconhecíveis e por isso mesmo mais fortes que a banda conseguiu fazer uma música que, ao mesmo tempo que silenciasse os detratores da banda ao mostrar que aquilo que eles tem de melhor é justamente o que tem de mais potente como diferencial E prova de talento inegável da banda, como conseguiram se superar na mesma fórmula que já tinha sido vitoriosa anteriormente. Sem contar que um refrão composto apenas de onomatopéias não é um truque que deva ser subestimado, aidna mais quando funciona tão bem.
14- Drunk Girls – LCD Soundsystem
Murphy é um cara realmente foda. Por trás da DFA deu uma das caras mais reconhecíveis do que seria o som dos 00′s, enquanto trabalhava por traz do LCD Soundsystem produzindo os melhores retratos desse choque gritante de rock e eletrônico que mira as pistas de dança, retratando (e sendo fonte de tal retrato ao mesmo tempo) de um som que definiu toda uma geração. E mostrando que não perdeu o faro para produções impecáveis, engata desde o início de Drunk Girls um riff potente de guitarra e um pequeno coral de homens gritando, numa música bem mais orgânica que qualquer coisa que Murphy tivesse feito até então, o que é lindo de se ver depois de ter trabalhado durante meia década pulverizando as fronteiras entre o rock e o eletrônico. Com frases deliciosas apresentadas com uma cadência de primeira graças aos backing vocals, a faixa vai ganhando corpo e, em menos de 4 minutos (tempo curto considerando a tendência de Murphy a extrapolar a barreira dos 6 minutos nas suas músicas), termina por sintetizar às avessas o mesmo choque de eletrônico e rock que ajudou a legitimar na década passada, mostrando ainda por cima um lado mais despojado que condiz muito mais com a ideia inicial do projeto, apresentando um lado instrumental novo e ajudando a fechar com chave de ouro (se estiverem corretos os releases de fim do LCD Soundsystem) a história de um dos projetos musicais mais icônicos dos anos 00.
13- Not In Love (feat. Robert Smith) – Crystal Castles
Havia uma Not In Love no cd do Crystal Castles que passava um bom pedaço do ano praticamente despercebida, completamente incapaz de competir com as highlights do maravilhoso segundo álbum da dupla. Foi com espanto então que recebi essa versão com Robert Smith, que vem aqui com a voz completamente limpa (tenha em mente que essa é uma faixa do Crystal Castles) numa versão que, embora mantenha a estrutura original da faixa, adiciona os vocais distorcidas de Glass apenas para pontuar momentos da letra, explode o refrão com uma batida bem mais encorpada que a original e conta com um dos vocalistas mais discerníveis da história emprestando sua voz eternamente associada à angústia adolescente a essa nova versão mais angustiante do instrumental anterior, fazendo dessa a melhor coisa que o Crystal Castles já fez e um dos momentos eletrônicos mais singulares do ano não apenas pela junção surpreendentemente eficiente do som do Crystal Castles com a assinatura vocal do The Cure, mas pela nova visão que essa faixa forneceu ao som avant-garde de um dos projetos musicais mais promissores que surgiram nos últimos anos.
12- Let’s Get Lost – Beck & Bat For Lashes
Aparentemente a composição dessa faixa foi feita pelo Beck. Aparentemente pois, em qualquer aspecto que se olha para essa faixa, parece um trabalho de Natasha Khan, desde o momento em que ela abre a faixa com seu vocal sempre impecável cantando “Touch me, I’m cold” até o fading final. Aliás, até mesmo os vocais de Beck dentro da faixa soam distantes se comparados com a clareza do vocal de Natasha. E é aí que entra o mérito de Beck que, dono de uma discografia invejável, sabe aproveitar como poucos os pontos fortes de suas composições. E ao ter consciência de que a voz de Natasha era o maior ponto forte dessa faixa, extraiu dela o máximo, numa de suas melhores composições em quase uma década, uma música quase etérea, com uma voz de sereia ornada por um instrumental algo gloom, um pouco gótico e tão belo que, sozinha, já justificou a existência do filme horrendo do qual faz parte da trilha sonora, o que por si só já é motivo para colocá-la entre os destaques do ano.
11- Colouring of Pigeons – The Knife
Quando saiu a notícia de que o The Knife lançaria uma ópera aquilo atraiu minha atenção. Não que eu estivesse realmente ansioso pela música em si, muito pelo contrário, mas queria ver o que ia sair de tamanha audácia, pois afinal eles são um duo eletrônico. Sim, esperei por esse álbum com em modo de ataque, não em modo normal. O que eu não esperava era que no fim das contas esse seria o primeiro álbum do The Knife que assumidamente mais que satisfez meus desejos positivos sem jogar água fria, já que, como esperava, a música em si foi feita menos para ser ouvida e mais para ser debatida, contando com um supertrunfo naquela que é, sem dúvida alguma, a melhor faixa de um grupo que já havia feito uma das melhores músicas da década passada. Com extensos onze minutos de um instrumental primal que deságua como ondas que se chocam contra rochedos e contando com um trabalho vocal que inclui canto e harmonia dignos de uma ópera conciliados com os vocais soberbos de Karin e Olof, foi ambição traduzida em forma de música, e apenas um duo com a mítica por trás deles como o The Knife seria capaz de dar um passo tão grande dentro da música atual.
10- Fuck You – Cee-lo Green
No dia que essa música caiu no youtube eu postei no twitter o link do vídeo com a frase: “Isso tem que ser hit”. E após vídeo, Glee, indicações ao Grammy e presença fixa em listas de melhores do ano da Grécia à Tróia, posso me sentir feliz de ter tido meu desejo atendido e ter visto o mundo ser brindado com um dos melhores hits dos últimos anos que não foi hit senão pelo brilhantismo da própria música. Pois mais importante que o vídeo da música ter sido um pequeno primor, que o uso da música num dos seriados de maior sucesso atualmente, que campanhas publicitárias, o que tornou essa música um hit foi a melodia que chuta bundas com seu ar retrô, a linha de baixo assassina e a letra divertidíssima no desalento porém cheia de dignidade entregue por uma das melhores vozes masculinas em seu segmento, uma soma de fatores com capacidade mercadológica quase inesgotável por, no fim das contas, trazer pras pessoas a melhor forma de superação possível: um enorme dedo médio com todo o carinho do mundo.
9- Sleep Patterns – Memoryhouse
Sleep Patterns, apesar de ser do incínio de 2010, ainda se mantém como incógnita, já que a banda memoryhouse ainda não lançou um álbum debut que mostre a que veio a banda. Mas como representante do ano poderoso que o Canadá teve e como representante do poder do estilo chillwave, foi provavelmente a música com mais cara de 2010 no ano inteiro. Contando com um trabalho delicado de cordas e um vocal assustadoramente limpo para o que seria comum dentro de instrumental que se propõe eletrônico, é uma faixa de simplicidade assustadora, simplicidade essa não no sentido de ser uma faixa de pouca carne, considerando que o espaço sonoro inteiro da faixa é sempre preenchido e há sempre uma surpresinha a cada turno que a faixa toma, mas simplicidade no sentido de ser uma faixa assustadoramente lo-fi, embora soe quase como uma lullaby alienígena, sendo deliciosamente atemporal em sua roupagem ligeiramente AC e um tanto quanto 90′s homemade. Mas tudo isso, todos esses truques antigos numa faixa nova, esse preciosismo, esse mistério, não seriam nada se não fosse, no frigir dos ovos, a capacidade que essa música tem de criar clima sem contudo perder o apelo pop, conciliando como nenhuma outra faixa do chillwave o olho técnico para o futuro e o tradicionalismo melódico.
8- All Of The Lights – Kanye West
Qualquer lista de melhores de 2010 que se proponha a ser levada a sério deveria por obrigação incluir essa música apenas pelo mérito do Kanye de ter conseguido juntar 12 nomes (o dele incluso) que representam facilmente o que há atualmente de melhor tanto em matéria de música antiga quanto de novidade tanto no pop quanto no mainstream. E para ser levada a sério de verdade, deveria incluir no top 10 essa faixa que, mesmo com um cast com gente do cacife de Elton John e Alicia Keys, constrói uma narrativa épica de um pai que só quer sua filha, tratando de permear a letra belíssima com uma imagética primorosa, fazendo concessões tipicamente pops dentro de uma de suas faixas mais hardcore que, no fim, demonstram o talento de Kanye como produtor, ao fazer com que cada participação reforce o poder da faixa sem com isso soterrar o próprio como mero coadjuvante em seu próprio trabalho, problema, por exemplo, que Jay-Z sofreu de entregar apenas o refrão para Alicia Keys em seu megahit Empire State of Mind ano passado, o que prova que essa não é uma tarefa fácil e que o sucesso de Kanye nessa faixa foi provavelmente o maior atestado de talento de um artista solo esse ano.
7- Broken Social Scene – World Sick
Aqui cabe um pouco de sinceridade: desde que saiu o álbum, World Sick nunca mais conseguiu ser a minha preferida do álbum, título que já foi de All To All, Forced to Love, Sentimental X’s e Texico Bitches atualmente. Mesmo assim foi a primeira faixa que tive contato e foi a única faixa dentre as minhas preferidas que sobreviveu à exaustão de execuções, já que, de todas, é a única que encapsula o que há de melhor em TODA a discografia da banda, começando com um trabalho de cordas e percursão gentil, com uma introdução longa que deságua num instrumental climático gentil que não morre nem mesmo quando o refrão explosivo de apenas duas frases que parecem não respeitar a explosão sonora que ocorre durante a repetição das frases, tendo tempo ainda de abarcar um interlúdio instrumental que ecoa o lado post-rocker da megabanda e um fading final quase tão longo quanto a introdução galopante e tão eficiente quanto, sem com isso deixar de ser uma gema de produção. Capaz de agradar tanto a fã-base da banda, acostumada com as costuras sonoras ambiciosas dos trabalhos antigos, quanto angariar novos fãs, capazes de reconhecer a beleza particular dessa faixa ou de meramente serem engolfados pela beleza crua dessa faixa, World Sick foi o returno triunfal de uma das bandas que deram a cara da música dos anos 00.
6- Chinatown – Wild Nothing
Essa música vai demandar o mesmo tipo de reflexão que coloquei em 1901 do Phoenix ano passado, com o adendo de que, ao dar play no vídeo, é preciso ter em mente que essa música foi feita por um cara e seu material caseiro apenas, junto de mais uns 3 projetos paralelos do cara e que durante todo o ano houveram diversas bandas dessa onda chillwave bem sucedidas, mas nenhuma capaz de criar algo tão belo quanto o momento em que o refrão dessa música chega e tudo que se ouve de letra, imersa no instrumental lúdico, é “We’re not happy till we’re running away”. Juventude capturada em 3:19 de música.
5- We Used to Wait – Arcade Fire
Nem parece que faz apenas 7 anos que o Arcade Fire lançou aquele que seria um dos, senão o álbum mais amado da década passada. Na verdade, após 3 álbuns, parece que a banda sempre permeou a história da música, já que até a mais fraca composição da banda possui um som distintamente poderoso, aquele tom de clássico, mesmo que invariavelmente as músicas da banda funcionem de forma limitada fora do contexto do álbum em que estão incluídas. E dentro do universo particular criado pela banda em The Suburbs, permeado pela constante dor do crescimento causada pelas intempéries das relações humanas que Win disseca pelo álbum, é na repetição tímida da frase “Hope that something pure can last” antes do final apoteótico da música e após a catarse lírica que é toda a parte anterior da música que Win trouxe à tona seu lado mais humano, frágil e capaz de criar identificação com qualquer pessoa que já sentiu a dor causada pela ação do tempo na vida do ser humano, uma experiência universal do ser humano traduzida com maestria pelo piano incessante e pela interpretação desse que é o melhor vocalista da atualidade. O ponto alto de uma banda que foi o ponto alto da música desde que surgiu.
4- Thieves – She & Him
Procuro sempre manter uma mente aberta em matéria de música, mas se tem uma coisa que a vida me ensinou foi a ter os dois pés atrás com atores que se engraçam pra cima da música, pouca importa aqui se são os prodígios Disney, feitos sob medida nas telas para bombarem na industria da música, seja no pedanstismo óbvio de atores de verdade que se jogam de cabeça em trabalhos pretensiosos. Nenhuma das categorias que falei, entretanto, servem para descrever She & Him, já que, após 2010, ficou claro que Zooey Deshanel, embora longe de ser uma atriz medíocre, encontra na música seus projetos mais relevantes. E Thieves, faixa de abertura do segundo álbum da banda, com sua melodia ligeiramente country, com um quê de anos 60 e uma letra acre interpretada com doçura, revelando uma atenção curiosa para detalhes na produção quase sem paralelos na música atual e um know how e amor pela música mais tradiocional, ecoando uma época onde música era feita exclusivamente por pessoas com talento para tal empreitada, pode muito bem colocar a banda da atriz num patamar que sua atuação até hoje jamais chegou perto de acenar para.
3- Tightrope (feat. Big Boi) – Janelle Monáe
O fato dessa mulher ainda não estar sendo consumida insanamente pelo mercado é a coisa mais intrigante desse ano tanto aqui quanto na lista de álbuns. Tightrope veio desde o começo do ano abrindo espaço para a recepção do monumental álbum da moça, a apresentação ao vivo dessa música no Letterman foi sem dúvida a apresentação do ano e, como carro chefe de um dos melhores álbuns do ano, Tightrope apresentava a voz estupenda da moça, que encontra diversas formas de mostrar versatilidade e potência dentro de uma melodia contagiante, acentuada pela guitarrinha motown e pela percurssão que nunca perde o foco, com uma letra deliciosa com as metáforas e rimas mais divertidas do ano [“I tip on alligators and little rattlesnakers/But I'm another flavor something like a terminator” ou “Some calling me a sinner/Some calling me a winner/I'm calling you to dinner and you know exactly what I mean” ainda estão para serem superadas], com o bônus de uma participação deliciosa de Big Boi, que tem seu melhor trabalho como convidade na carreira nessa faixa. Considere também que esse é o primeiro álbum da moça. Ainda acham estranho ela não ter sido alçada ao posto de next big thing?
2- I Didn’t See it Coming – Belle and Sebastian
Aqui vale uma verdade: quando Stuart Murdoch está no comando, até o mais descartável dos trabalhos que saírem do forno serão capazes de agradar. Isso pode ter deixado muita gente mimada para aceitar tão animadamente os trabalhos da banda pós The Boy With The Arab Strap e confesso que já havia desistido de esperar por algum sinal da genialidade da banda novamente mais do que em 3 ou 4 faixas de cada álbum. Mas quando o Belle and Sebastian trabalha um álbum inteiro em seu nível máximo como fez esse ano, a faixa de abertura do álbum já te desarma por completo, como essa faz com o dueto suave (e é curioso notar que o vocalista de uma das bandas mais respeitadas de todos os tempos cede a primeira fala a uma convidada após retornar ao controle absoluto da banda), com um refrão como nunca antes foi confeccionado dentro da discografia da banda e com uma produção que desagua devagar e nasceu atemporal, tornando-se desde já a melhor faixa de abertura de um álbum da banda (só por curiosidade, a faixa de abertura do primeiro álbum da banda é uma das 10 melhores músicas dos anos 90 para mim).
1- Dancing On My Own – Robyn
Lembro que na retrospectiva de 2008 falei que o material da Robyn ficava melhor quando trabalhado por outros que por ela mesma. Paguei com a língua. Dancing On My Own não é apenas uma peça genuinamente pop de prazer inegável, que funciona perfeitamente bem como completemento a um escopo absurdo de experiências humanas graças a um instrumental sem exageros infeccionado por um vírus desse revival new wave que sugou rna de células do eletrônico mais tradicional, fixando-se numa estrutura 4/4 e uma letra capaz de salientar melancolia como também de incendiar espíritos como nenhuma outra música conseguiu esse ano, como ainda vem com o bônus de uma interpretação tão singular carregada por uma voz tão única que, no fundo, você sabe que apenas Robyn poderia alçar essa faixa à tamanha gama de intertextos com as experiências de quem esteja ouvindo a música. E é sempre um alento para a alma e uma lufada de esperança quando a maior prova de talento no ano vem junto do material que, mesmo não sendo o mais espetacular-fucking-foda, não encontrou paralelo em matéria de mover quem entre em contato com essa música.


