A questão é a seguinte, aqui também acabou tendo música pra caralho e vou fazer um top. Claro que certas coisas dificultam esse top, pois há projetos e projetos. Fever Ray e Emilie Simon lançaram álbuns onde as canções não vieram para funcionar solitárias, por mais impressionantes que elas sejam, o que tornaria injusto destacar uma dessas entre as maiores do ano em minha opinião. E por melhores que sejam os remixes das músicas do The Gossip e Saint Etienne, ainda tenho meu preconceito se a música remixada supera a original. Dito isso, aí vai a lista das melhores músicas do ano.
1 My Girls – Animal Collective
Cada vez que essa música começa a tocar em algum lugar, com Panda Bear declarando exatamente como o suficiente é bem menos do que aprendemos desde cedo dentro de uma sociedade baseada em acúmulo cego, adornado pela melodia hipnótica e pela construção ligeiramente tradicional de vocais contrastando com a extrutura sonora fluida, em algum lugar o mundo se torna um lugar melhor. Não é só uma música do caralho, é uma música importante, de uma mensagem simples mas que resiste ao desgaste pela universalidade e atemporalidade.
2 1901 – Phoenix
Não, eu não preciso escrever nada se vocês verem isso, só vou precisar se alguém, como eu, notar por vezes uma dúvida: será que não merecia estar uma posição acima?
3 Bad Romance – Lady GaGa
Joguem as pedras, mas na indústria da música ninguém caminhou tanto esse ano quanto Lady GaGa. E não por falta de méritos nem de ambições, embora só com Bad Romance as ambições chegaram na música além da imagem. Uma estudante exemplar da escola Madonna de artistas pop, Lady GaGa já disse que ninguém resiste à um bom refrão e nisso ela tava certa. E Bad Romance tem um refrão bom, uma entrada boa, estrofes boas, e por mais que discutam a imagem dela à exaustão, é com músicas meticulosamente bem produzidas como Bad Romance que ela se destaca do nicho de Shooting Stars como Katy Perry e se aproxima até rápido demais do nicho de Superstar, um ramo defasado mas que sempre mantém o respeito que merece.
4 Convinced Of The Hex – Flaming Lips
Provavelmente a escolha da faixa de abertura do Embryonic foi o momento mais simples na construção do cd. “I believe in nothing / And you’re convinced of the hex / That’s the difference between us” são as últimas frases da faixa e não dizem o que será o Embryonic, mas dizem o que fazer com esse álbum. E dizem sobre a faixa também, com bateria ligeiramente funkeada e guitarras distorcidas, interferências vocais estranhas, essa música é como algo nunca feito antes, recusando qualquer tag que possam tentar colocar sem com isso deixar de ser cativante. É algo inacreditável para qualquer pessoa acostumada com música, mas Flaming Lips não é uma banda que navegue por crenças. E sem uma bússola a banda ainda é capaz de criar algo incrivelmente belo.
5 Lizstomania – Phoenix
Phoenix ficou toda essa década fazendo música boa, e eles próprios tem músicas melhores que essa. Mas foi com essa música que eles saíram da zona inferior ao radar e chamaram a atenção. Abrindo o estupendo álbum da banda, a faixa é bem marcada, com um refrão primoroso e um ritmo frenético que vai das estrofes pras pontes suavemente graças às transições intrumentais e líricas bem gentis, sendo um estouro da primeira à última nota e mostrando que o Phoenix, por mais que não tenha um diferencial muito claro, tem o diferencial de ser uma banda realmente boa naquilo que faz, coisa rara hoje em dia.
6 Lust For Life – Girls
Não é meramente uma introdução a um dos melhores álbuns do ano. Lust For Life é o álbum inteiro condensado em parcos minutos, o que não apenas torna a faixa a mais memorável do álbum como também abre caminho para algo simples: quem (por alguma razão que eu não consigo imaginar) não gostar dessa faixa pode desistir do álbum, já que TODOS os pontos que destacaram a estréia do grupo californiano aparecem na faixa, desde as guitarras de garage rock dos anos 90 que servem a uma composição de sonoridade mais 60’s à letra emocionalmente simples e avassalodora cantada de forma rasgada. Se uma faixa realmente mereceu o nome de carro chefe esse ano, Lust For Life sem dúvida foi essa.
7 Black Hearted Love – PJ Harvey e John Parish
Uma supernova num álbum cheio de estrelas de pequeno porte, Black Hearted Love mostra o que a união do multinstrumentista John Parish e da absurdamente talentosa compositora PJ Harvey podem produzir. A parede de guitarras e o baixo sutil safado que abrem a música seguem até o fim, pontuando os vocais languidos de PJ no que seria uma das suas letras mais romanticas já construídas, o que nesse caso pode exemplificado pelas comparações com crime, pelo refrão explosivo no imperativo mesmo que ela diga “I’d like to take you” e pelo final caminhando num fade lento onde a fala da moça é quase descritiva em sua obsessão. Se o cd tivesse apenas mais uma faixa como essa já seria um dos melhores do ano com o nível das outras, já que essa é a faixa que PJ tentou fazer durante toda a década sem sucesso. E isso quer dizer muito.
8 Daniel – Bat For Lashes
Com tantas composições complexas dentro desse álbum, justamente a mais direta é a mais memorável. Daniel é uma faixa que cresce devagar, algo claramente teatral, e quando a cena completa é apresentada o impacto é avassalador. Os sintetizadores e a batida carregam a voz de Natasha por um clima sombrio, ligeiramente gótico, onde ela se esbalda na interpretação da letra, repleta de vulnerabilidade mas ainda assim num refrão encantadoramente esperançoso, com os vocais ligeiramente etéreos, fazendo da faixa uma interessante trilha sentimental macabra para o tema “Amor”. Sem dúvida alguma a música pop do ano.
9 Magnificent – U2
O maior erro do U2 na promoção do No Line On The Horizon foi ter colocado a única faixa abaixo do nível das outras como carro chefe do álbum e ter desperdiçado a chance de ter usado essa soberba faixa como carro chefe do álbum, tendo usado apenas quando o estrago já tava feito e as expectativas andavam baixas. Magnificent tem uma extrutura padrão, mas nas mãos do U2 uma extrutura padrão é um espetáculo de guitarras de um tempo onde o instrumental era bem mais valorizado e de vocais capazes de colocar um cão morto aos pulos. Uma faixa assim teria elevado a expectativa do álbum ao nível que ele realmente merecia e ele não seria carregado pelo nome da banda, mas sim pela qualidade das músicas.
10 Zero – Yeah Yeah Yeahs
Mesmo o mais mente aberta não deve ter entendido o que significou o começo do It’s Blitz, pois quando Karen O avisou para colocar seu couro foi o momento em que a festa começou. E daí pra frente a faixa só continua seu ritmo frenético, com muitos mais truques de produção que qualquer faixa anterior da banda, com bateria marcada para a pista de dança e os vocais sensuais de Karen O servindo maravilhosamente bem para a proposta dançante do grupo, o que não significa que essa faixa não seja grandiosa o suficiente para maravilhar no palco. Versátil, envolvente e divertida como nenhuma outra do ano, Zero foi a bússola da nova direção que o grupo tomou a um som mais divertido e nem por isso menos empolgante.
11 Moth’s Wings – Passion Pit
Passion Pit fez um cd inteiro de singles, mas a faixa mais afeiçoável é aquela que vem justamente mais delicada. Diferenciada do som do resto álbum que flerta com as tendências associadas à juventude, Moth’s Wing é uma parede de sintetizadores construindo uma faixa grandiosa da introdução ao desfexo, com harmonias vocais delicadas e um clima animador, despida de afetações e construída com um preciosismo estonteante que a cada audição se revela mais envolvente.
12 Islands – The XX
Foi difícil escolher uma faixa do álbum que pudesse merecer destaque entre as outras, mas seria ainda mais injusto que não se colocasse uma entre os destaques do ano. E o trabalho aqui era escolher qual das diversas qualidades do álbum foi a mais recompensadora, e a escolha de Islands se baseou na escolha particular da sensualidade. E a guitarra sem vergonha dessa faixa, aliada aos vocais blases de Romy dialogando com os vocais frágeis de Oliver fazem dessa não apenas a faixa mais sensual do álbum, mas a faixa mais sensual do ano.
13 Songs Remind me Of You – Annie
Richard X é um mago de texturas, mas aqui ele realmente se superou. O trunfo aqui foi ter feito a faixa mais dançante do catálogo de uma artista que era cultuada na esfera dance. Trabalhando a sonoridade eletropop oitentista com truques típicos da terra da moça, Songs Remind Me Of You é como se Royksopp e o Human League de Dare! gerassem uma filha ligeiramente tristonha, mas que nem por isso perdesse da cabeça a idéia de que a melhor saída para a fossa é uma boa pista de dança.
14 Summertime Clothes – Animal Collective
Aqui eu novamente abro espaço para ser criticado pela colocação: Avey Tare é de longe o melhor vocalista no grupo. E se há quem arraste asa pro Noah, bem, assumo que pelo trabalho solo dele é possível que o que de mais acessível haja no trabalho do Animal Collective venha dele, mas estamos falando de um grupo que canta sobre bases eletrônicas, e é na entrega de frases como “I want to walk around with you” que Avey Tare traz com nada maior que docilidade que surge um dos motivos do porquê o Animal Collective é o grupo mais bem sucedido da década, artisticamente falando. O elemento humano dentro da banda nunca é esquecido. E isso é ponto de Avey somente.
15 French Navy – Camera Obscura
Campbell é uma liricista cerebral até demais, e é interessante notar que seu arsenal, que inclui cinismo dos bons e contruções que deixam claro o lado dela de Sou mais espera que vocês, possa funcionar tão bem numa faixa que desliga o racional e apela para o emocional, pois em 30 segundos toda a história do encontro foi narrada e daí pra frente é só entender o que fazer com isso. E dessa vez, talvez pela doçura do trabalho de cordas que coroa a música ou pela bateria girl group 60’s, Campbell pendeu para o lado açucarado, o que só fortaleceu essa que é a faixa mais doce do ano.
16 Hooting & Howling – Wild Beasts
O começo já traz o falsetto delicioso de Hayden chamando a atenção mais do que qualquer instrumental poderia. Mas quando os intrumentais aparecem a faixa fica ainda mais forte, confiando na guitarra que praticamente dialoga com o vocal durante toda a faixa para construir uma faixa que vai a cada momento ganhando energia até que chega num final apoteótico, que embora tenha estrofes repetitivas por boa parte, são construções vocais que não apenas possuem força como são imageticamente fortes o suficiente para reverberarem na mente muito depois do término da faixa.
17 Dog Days Are Over – Florence + The Machine
O buzz ao redor do trabalho de Florence Welsh não foi injustificado, como essa faixa pode demonstrar. Uma vocalista de primeira com um talento para entregar as letras a cada momento como a letra demanda, de interpretação inteligentemente enérgica, cada afetação apenas contribui para o resultado final da faixa ser maior que a idéia em si. Como se não bastasse o talento da vocalista, a composição é adornada por um trabalho de cordas delicado e delicioso ao redor da cacofonia que engrandece a faixa, fazendo com que a atenção na faixa seja sutilmente renovada a cada novo turno que a faixa toma, e com o tanto de transições dentro dessa faixa, foi um trabalho nada menor que incrível o que foi atingido aqui.
18 People Got a Lotta Nerve – Neko Case
Essa é uma daquelas faixas country capazes de cruzar as barreiras que normalmente sufocam o nicho e se tornar uma boa lembrança do que faz com que esse terreno sempre se renove, já que essa faixa flerta mais com as mulheres de violão da virada da década de 80 que com as crossovers do country music que inudaram a virada dos anos 90. Além disso a ruiva surpreende com letras que só revelam o que ocorre lá pela metade da faixa e tragam o ouvinte pela curiosidade e pela voz incrivelmente gostosa da moça. Forte do começo ao fim, People Got a Lotta Nerve ainda tem a vantagem de, se deixar no seu player no repeat, vai ouvir até perder a conta sem cansar. Testem, garanto que não vão se arrepender.
19 Eet – Regina Spektor
Far foi um álbum onde Regina trouxe o aprendizado dos anos anteriores na composição pela primeira vez na sua carreira, auxiliada por um time cavalo de produtores. Mas se isso soa muito jugo seguro, podem crer que não é o caso. Eet é uma faixa que, assim como o Begin to Hope, apoia-se não só no piano da moça, mas em toda uma extrutura de estúdio, mas dessa vez a moça traz cada ítem usado na composição para que seu piano e sua voz sejam vistos maiores e acima, e considerando que ela é uma vocalista habilidosa e uma pianista incrível, podem acreditar quando digo que o resultado é algo positivo. Mais que isso, recompensador.
20 Saga – Basement Jaxx
Ano passado falei que Santigold faria melhor se saísse da esteira da M.I.A. e fizesse algo próprio. Quem diria que a união dela com Basement Jaxx é o que sinalizaria para o quão boa essa idéia pode ser. O flerte com o reggae soa até irônico quando a faixa chega no seu refrão, onde ela martela a a frase “You’re just limiting all the possibilities” em meio às batidas alucinadas que o duo usa ao redor de seus vocais curiosos mostrando que, livre de uma tentativa de rótulos, seu trabalho pode ser tão bom quanto o da cingalesa. E embora não saiba de quem foi a idéia de flertar com um som mais reggae a principio, é a presença de Santigold que disparou esse gatilho. Nesse caso, esse foi sem dúvida o trabalho em equipe mais aberto da carreira do duo. Não bastasse ser uma ótima faixa, ainda é uma que vem cheia de boas possibilidades para o futuro.
As outras faixas que mereceram destaque esse ano:
Try Sleeping With a Broken Heart – Alicia Keys
The Spell – Alphabeat
Brothersport – Animal Collective
Anthonio – Annie
Walkabout – Atlas Sound
My Turn – Basement Jaxx
Siren Song – Bat For Lashes
Deli – Delorean
Stilness Is The Move – Dirty Projectors
Nothing To Do With You – Emilie Simon
Rainbow – Emilie Simon
Standing On The Shore – Empire Of The Sun
If I Had a Heart – Fever Ray
Laura – Girls
Heavy Cross (Fred Falke Remix) – The Gossip
Crazy/Forever – Japandroids
From Africa do Malaga – JJ
In For The Kill – La Roux
Sattelite Heart – Metric
This Tornado Loves You – Neko Case
Chasing Pirates – Norah Jones
Sleepyhead – Passion Pit
Mommy Complex – Peaches
Chasing The Tear – Portishead
Consider Me Gone – Reba McEntire
The Calculation – Regina Spektor
This Must Be It – Royksopp
Method Of Modern Love – Saint Etienne
Only Love Can Break your Heart (Richard X Balearic Remix) – Saint Etienne
Arrow – Tegan and Sara
Crystalised – The XX


