2010, a playlist

2010 sem dúvida alguma foi um ano atípico em matéria de música. Serei atípico então e começarei a minha retrospectiva particular pelas músicas lançadas em 2010 (no GaGa, ok?) que acho que deram a cara de 2010. E qual foi essa cara? 2010 foi, em minha opinião, o melhor ano musical desde que comecei a consumir música (back in 2000) e o melhor ano em matéria de música, imagino eu, desde 1998. Heróis antigos da música voltaram de forma triunfal, novidades maravilhosas pipocaram e, mais importante de tudo, a própria industria musical, ciente do estado semi-comatoso em que se encontra atualmente, atirou para todos os lados, abraçando como nunca os talentos que despontaram à margem dessa industria, sinal claro de que a industria estava ciente de que o seu braço não alcançava mais as áreas daqueles que não tem como parte importante de sua vida o amor por essa arte. Fosse num maior envolvimento do artista com a produção de seu material, fosse numa reavivada dentro do mercado da apreciação da estética do álbum como formato, 2010 tem a faca e o queijo na mão para se tornar no futuro um ano pivotal dentro da cultura musical.

Musicalmente falando, o tom de saudosismo foi imperativo esse ano. Dentre as faixas que mais se destacaram esse ano foi possível notar toques de 60′s country, 70 AC, 80′s synth, old funk, lo-fi, old-school hip hop, traditional techno e puro e simples pop, seja através da execução nua e crua das influencias antigas ou da tradução das antigas técnicas aos novos formatos. A popularização do termo chillwave dentro da blogosfera foi um sinal claro disso. Mas a única conclusão que posso tomar disso é que 2010 foi um ano onde uma única trend não fará justiça ao escopo, já que a música de 2010 não se preocupou em formar uma identidade tanto quanto se preocupou em ser boa pra caralho. E a menos que o termo (bem coringa por sinal) chillwave vingue dentro da cultura, 2010 será provavelmente conhecido como um ano onde os únicos links entre as obras mais marcantes foram o preciosismo técnico, que elevou a qualidade dos trabalhos a níveis incrivelmente altos comparado aos anos anteriores, e o aparente respeito/culto/amor à história da música na era do rock das bandas que surgiram ou de bandas já consagradas que ainda moldam o som de nossa geração.

Comecemos então pelas faixas que mereceram destaque, porém não figuraram no top:

10 Mile Stereo – Beach House

Norway – Beach House

Boyfriend – Best Coast

Liquor Store Blues – Bruno Mars

Odessa – Caribou

Celestica – Crystal Castles

Baptism – Crystal Castles

Take Me Over – Cut Copy

Desire Lines – Deerhunter

Earthquakes – Deerhunter

Guns and Horses – Ellie Goulding

Locked Inside – Janelle Monae

Kiss That Grrrl – Kate Nash

Teenage Dream – Katy Perry

Brave – Kelis

Saturday Come Slow – Massive Attack

To The Lighthouse (Millionyoung mix) – Memoryhouse

Afraid of Everyone – The National

Heart in Your Heartbreak – The Pains of Being Pure at Heart

Soldier of Love – Sade

Sale el Sol – Shakira

Too Much – Sufjan Stevens


Speak Now – Taylor Swift


Cousins – Vampire Weekend

2080 – Yeasayer


Top 30 (10 a mais que ano passado)

30- XXXO – M.I.A.

Foi um ano PAVOROSO para essa que é uma das artistas mais promissoras a surgir nos últimos 10 anos, onde, após o sucesso crossover de sua Paper Planes, encontrou em 2010 uma verdadeira catástrofe publicitária, dando tiro atrás de tiro no pé e incapaz até mesmo de lançar um material que fizesse jus à tamanho suicídio social. Mas uma artista de tamanho talento não passa incólume por uma fase negro e, mesmo em seu pior momento, M.I.A. foi capaz de dar um alento à seus fãs na forma da música mais poderosa para o dancefloor, com graves pesados pulsando ritmicamente numa batida até limpa comparada com o caos dos singles antigos da cingalesa, mas que por isso mesmo ganham em força pelo modo direto de trazerem a batida, além da voz blasé de M.I.A., um tom que sentia falta desde Galang. XXXO também ganha espaço por, num ano de músicas pensadas sempre com um olho no passado, ter sido uma música de seu tempo, um momento ainda em sintonia com o hedonismo, linkando bem tais ideias atuais com o dancefloor poderoso da cingalesa, que não encontra paralelo com nenhuma de suas contemporâneas em matéria de inventividade e capacidade de colocar as pessoas pra dançar.

29- What’s My Name – Rihanna

Primeiro momento climão da lista, gente. Mas a ideia por trás dessa lista é pensar no que foi o som de 2010 e sinceramente, não importa se foi produtor fulano, acampamento de produtor, se a artista mal a voz colocou na confecção, fato é que dentro da industria, mais do que nunca inclusive, tem existido um choque da antiga relação nociva de criação em atacado de estrelas com a ideia de personalização, onde essa criação respeita a imagem singular de cada estrela ao invés de fixá-las num modelo às vezes tão genérico e artificial que nem uma segunda atenção merecia. E foi aproveitando a persona de fêmea alfa de Rihanna construída após o escândalo de violência doméstica com seu ex e suas origens caribenhas na construção de uma faixa que flerta com o chillwave (vocês verão muito esse nome na lista desse ano) e o dancehall que fez o nome dela despontar pra começo de conversa que Rihanna cunhou o hit mais singular desde os singles de Justin Timberlake há 3 ou 4 anos atrás. Com o adendo de ter feito isso com uma música que tem a cara da própria, cimentando ainda mais a imagem singular da mesma via música, algo que no pop é mais importante que picos em charts para manter uma carreira.

28- None of Dem (feat. Röyksopp) – Robyn

Röyksopp é um daqueles projetos que costuma fazer nome, criar culto ao redor, mas infelizmente jamais ver chegar o real reconhecimento que mereciam. Senão vejamos essa música, lançada pouco antes do primeiro single do Body Talk pt 1, None Of Dem foi de longe a melhor coisa que Robyn havia lançado até então. Não apenas pela letra, mais fierce que qualquer coisa no catálogo de qualquer contemporânea dela e ainda a ser topada, mas principalmente pelo instrumental nada menos que perfeito, começando devagar e se revelando em etapas, culminando em uma sucessão de batidas hipnóticas sob uma base disco que soam meio espaciais, tão boas que até mesmo a própria Robyn foi esperta o suficiente pra deixar apenas o instrumental carregar a música. O resultado? Reconhecimento à Robyn como uma das artistas do ano, mas nem mesmo pela blogosfera vi algum levantamento do trabalho do duo, que sem dúvida foi um divisor de águas na carreira da moça. Ao menos reconhecimento dos colegas de profissão eles parecem ter…

27- Loca – Shakira

Eis aqui o momento mais tenso da formação dessa lista. Haters gonna hate, mas fato é que Shakira é um exemplo de artista mainstream. Artista mesmo, já que mesmo com uso de sua imagem hipersexualizada, Shakira mantém um perfil baixo, longe de escândalos ou de autopromoção por suas virtudes pessoais, preferindo deixar que sua música mantenha seu posto dentro da popsfera de única artista pop global da atualidade. Não que não existam outras artistas que façam sucesso global, mas Shakira é aquela que coloca em suas obras os sons que entra em contato. Como ao se apaixonar pelos ritmos caribenhos esse ano, ressurgindo após o fiasco da tentativa de um álbum de pop pop apenas. Loca tem marcação clara e forte, sendo uma das faixas mais dançantes lançadas no mainstream, com o adendo de acenar para ritmos que, não fossem cantados por Shakira, provavelmente jamais veriam a luz do reconhecimento global, tecidos com cautela dentro de uma produção tipicamente pop e com os vocais mais sexys da carreira de Shakira (foco no “Dios Mio”), sem nunca perder o fôlego. Um dos melhores retornos à forma dos últimos tempos.

26- On Melancholy Hill – Gorillaz

Ainda existe alguém no mundo que não tenha se rendido ao Gorillaz? Após conquistar o mainstream com o primeiro álbum, calar a boca dos críticos com o segundo, vieram esse ano com um álbum infinitamente mais acessível que o primeiro. E é na faixa mais pop da carreira da banda que Damon Albarn parece ter encontrado pela primeira vez desde seu trabalho com o Blur em meados dos anos 90, aclamação unânime. On Melancholy Hill é uma faixa que exala retrô com batidinhas pontuais e instrumentais sampleados e usados de forma aparentemente descuidada, dando um ar quase infantil à faixa e uma imagética na letra que mais parece randomico. Passa longe do preciosismo que as faixas do Demon Days possuiam. Mas possui mais hooks que álbuns inteiros, sendo de longe a faixa mais pop que o Gorillaz já fez, o que significa que é prazer imediato com a grife Damon Albarn de qualidade. E não é preciso maior recomendação que isso.

25- Punching In a Dream – The Naked and Famous

Essa aqui vai demandar nova dose de honestidade: não conheci a banda em 2010, mas sim em 2011. Ainda bem que problemas me impediram de compilar essa lista antes de entrar em contato com a música desse grupo, pois seria uma lista sem dúvida menos justa se não incluísse essa música, claramente filha do som do Passion Pit mas com suas próprias virtudes, como a presença de um vocal feminino para adocicar ainda mais a parede de som que aparece no começo sem introdução e segue até o final da música sem alíviar, sendo lúdica o suficiente para relaxar ao mesmo tempo em que conserva um apego forte às pistas de dança, podendo ainda ser vista como plausível em grandes eventos. E é essa capacidade que essa música tem de fundir-se tão bem com o intimismo e apelar tão bem com o grandioso que torna ela única dentro do seu filão.

24- Faded High – Gayngs

Um dos projetos mais inusitados do ano, Gayngs reuniu mais de 20 pessoas de bandas diferentes aparentemente just for the hell of it, já que é praticamente (e aqui cabe bem o sentido literal dessa palavra) impossível reunir toda essa galera pra mandar um som, posto que eles tinham que encontrar uma brecha na agenda de todos os envolvidos com seus projetos paralelos. E embora o próprio resultado final tenha ficado obviamente descuidado, ao ouvir uma faixa como Faded High, que presta homenagem clara ao som oitentista radiofônico com seu tecladinho toscamente construído e linhas de guitarras new wave-y enquanto fragmenta essa mesma perspectiva sobrepondo vocais e mergulhando a melodia dentro de uma estrutura instrumental hipnótica de gordos 7:29, você realmente espera que esse projeto não seja largado de mão e quem sabe seja ampliado em um futuro próximo.

23- Acapella – Kelis

Numa das viradas mais bem sucedidas em matéria de som que vi desde que comecei a acompanhar música, Kelis ressurgiu de um limbo produtivo de anos lançando essa música numa parceria com David Guetta no que, no fim das contas, revelou-se o melhor trabalho do Guetta de muito longe comparado com as farofas maximals que ele costuma criar. Abandonando o estilo club stomper e preocupando-se mais com com detalhes, Guetta fez aqui uma música eletrônica tradicionalissíma, centrada nas batidas, com camadas e camadas sonoras revelando-se e fundindo-se enquanto Kelis, uma das mais talentosas intérpretes da nova geração, canta uma música de metalinguagem maravilhosa para sua filha, criando uma música que destrói nas pistas e enternece quem escuta.

22- Monster – Kanye West

Power pode ter sido uma daquelas faixas que em teoria chamaria a atenção pela ousadia do trabalho e tudo, mas após o backslash de Kanye, lançar uma faixa chamada Monster, chamar Jay-Z APENAS para engrossar o caldo e deixar que uma novata que até então nem cd tinha em seu nome roubar a cena numa das produções mais cruas do hip hop desde Simon Says do Pharoahe Monch foi tudo que o mundo realmente precisava ouvir para calar a boca e aceitar que mesmo sendo às vezes um completo babaca, com esse talento todo Kanye tem passe livre para ser o quão babaca precisar ser.

21- All I Want – LCD Soundsystem

Definindo: Heroes do David Bowie adaptada pelo LCD Soudsystem num dos melhores e mais audaciosos usos de uma música antiga ever.

20- Modern Man – Arcade Fire

Sem dúvida essa é a faixa mais deglutível dentro de todo o The Suburbs. Apesar da estrutura quebrada, o violão, a guitarra e a bateria com roupagem Springsteen ajudam numa assimilação imediata da faixa, que contém os vocais mais contidos de Win na carreira à exceção de Neon Bible. Somente por isso, por ter o instrumental mais gentil da carreira da banda, que costuma tender ao grandioso sem dó, Modern Man já seria uma pérola digna de nota. Mas a principal força da faixa mesmo é a letra, que em uma frase e com seu título repetido o tempo todo, funciona como o verdadeiro manual de instruções ao álbum da banda. Pois nenhuma frase resume melhor o feeling do cd, que foi o melhor do ano, que “Maybe when you’re older you will understand/Why you don’t feel right/Why you can’t sleep at night now”.

19- I Am Not A Robot – Marina and The Diamonds

E eis aqui um exemplo do que um arroz com feijão musical é capaz de atingir quando vem ancorado com alguém que demonstra ter talento real e amor por música pop. A Back In The Van desse ano (ver retrospectiva de 2008), construída à base de um piano, é uma música pop nos moldes mais tradicionais possíveis: Verso – Ponte – Refrão, um interludizinho ali antes de entrar no refrão final e a música acabar. Sendo a mais straightfoward inclusive do cd, I Am Not A Robot ganha justamento por isso, por abraçar o lado pop da persona de Marina e despir-se por completo de pretensão, tendo os melhores vocais do álbum e uma letra sem firulas, mesmo que deliciosamente ácida. E é justamente nesse momento especial do álbum em que ela esteve menos preocupada em provar pontos e apenas entregou a música da melhor forma possível, sem sacrificar o imediatismo da faixa em prol de momentos de “provas de talento enquanto artista”, que Marina fez aquela que provavelmente será sua faixa assinatura e a melhor faixa pop mainstream do ano de 2010.

18- Crazy For You – Best Coast

Ooooh, Bethany, espero que as pessoas consigam ver, assim como eu, porquê com pérolas como essa o seu álbum foi o segundo melhor debut desse ano. Condensados em apenas 1:50 existe aqui o que, venhamos e convenhamos, representa tudo que há de melhor no rock tipicamente norte americano. Guitarrinhas sem vergonha, uma quedinha pro lo-fi, letras de amor adolescente rasgadas, harmonias vocais, Crazy For You parece tradicional pra caralho. E realmente é. Imaginem um filho de um caso de amor dos Beach Boys não experimentais com um Pavement do primeiro álbum cantado por uma mulher que não tem vergonha de metralhar o ouvinte com versos rasgados como “Want to hate you but then I kiss you/Want to kill you but then I’d miss you”, tudo isso de forma tão in your face que transborda despretensiosismo e faz, na medida certa, o que música deveria fazer: ser boa pra caralho!

17- Indestructible – Robyn

Durante o projeto Body Talk fomos apresentados à versão acústica dessa faixa naquela que considero a parte mais fraca do projeto, a parte 2, já sabendo que viria uma versão com o trato Robyn como havia sido feito com Hang With Me. A diferença é que, ao saber que viria uma versão, digamos, turbinada da música, foi nos dado um tempo ainda para imaginar o que viria ou simplesmente para curtir a versão acústica que já era incrível. Mesmo assim, quando saiu a versão do álbum o choque foi brutal. O novo instrumental veio simplista, flertando com o techno mais tradicional sem contudo abrir mão da opulência da faixa acústica, traduzindo inclusive o magnífico trabalho de cordas da versão acústica com a ajuda dos sintetizadores, criando uma cascata glacial de batidas enérgicas e urgentes que vem em ondas e impelem o ouvinte a ouvir num loop, já que o começo casa perfeitamente com o final da faixa. Junte à isso a voz sempre recompensadora de Robyn interpretando uma letra de ambiguidade sexual poderosa, já que brinca com a ideia de dança e sexo como desde Madonna não via ser feito dentro da música pop e temos, sem dúvida a segunda melhor música pop do ano.

16- Easy – Joanna Newsom

Quando ouço sobre um cd da Joanna Newsom meu mundo fica mais feliz. Ninguém atualmente faz música como essa mulher, o que, ao mesmo tempo que detona a capacidade dela de se tornar uma artista com um público maior, ao menos não deixam a menor dúvida de que quando ela grava algo a intenção dela está relacionado menos à necessidades pessoais e mais ao puro e simples impulso artístico. Senão, vejamos essa highlight que abre o novo (e colossal) álbum da moça: Harpista de vocação, liricista por dom e vocalista por talento, Easy constrói ao redor da poesia (já que não tem outra forma de chamar essa letra maravilhosa, minha preferida do ano) uma melodia sempre dinâmica que trabalha com as inflexões da moça, uma vocalista primorosa, para criar um clima agradavelmente dramático, pontuando o ultimato da poesia ,que a moça declama com exercícios vocais que fariam inveja à muitas cantoras de treinamento lírico, e criando uma das mais atemporais e mais impactantes declarações de amor que já foram gravadas. Música como não se vê hoje em dia nem nas melhores discografias. E é bom relembrar um pouco do prazer da música pela música em si.

15- White Sky – Vampire Weekend

White Sky é uma faixa quintiessencial Vampire Weekend. O sabor artificial áfrica no rock britânico está aqui. As letras de pura imagética em forma de narrativa também. A delicadeza dos arranjos instrumentais que parecem fruto de horas de sessão para acertarem milimetricamente cada nota também. Os vocais adolescentes e afetados de Ezra também. Então porquê essa faixa, que é sem dúvida a mais apegada ao som que deu notoriedade à banda no meio de tantas viradas de rumo colocadas dentro do Contra, é a que escolhi? Porquê amadurecimento tem seus bônus, e foi apegando-se aos seus pontos mais reconhecíveis e por isso mesmo mais fortes que a banda conseguiu fazer uma música que, ao mesmo tempo que silenciasse os detratores da banda ao mostrar que aquilo que eles tem de melhor é justamente o que tem de mais potente como diferencial E prova de talento inegável da banda, como conseguiram se superar na mesma fórmula que já tinha sido vitoriosa anteriormente. Sem contar que um refrão composto apenas de onomatopéias não é um truque que deva ser subestimado, aidna mais quando funciona tão bem.

14- Drunk Girls – LCD Soundsystem

Murphy é um cara realmente foda. Por trás da DFA deu uma das caras mais reconhecíveis do que seria o som dos 00′s, enquanto trabalhava por traz do LCD Soundsystem produzindo os melhores retratos desse choque gritante de rock e eletrônico que mira as pistas de dança, retratando (e sendo fonte de tal retrato ao mesmo tempo) de um som que definiu toda uma geração. E mostrando que não perdeu o faro para produções impecáveis, engata desde o início de Drunk Girls um riff potente de guitarra e um pequeno coral de homens gritando, numa música bem mais orgânica que qualquer coisa que Murphy tivesse feito até então, o que é lindo de se ver depois de ter trabalhado durante meia década pulverizando as fronteiras entre o rock e o eletrônico. Com frases deliciosas apresentadas com uma cadência de primeira graças aos backing vocals, a faixa vai ganhando corpo e, em menos de 4 minutos (tempo curto considerando a tendência de Murphy a extrapolar a barreira dos 6 minutos nas suas músicas), termina por sintetizar às avessas o mesmo choque de eletrônico e rock que ajudou a legitimar na década passada, mostrando ainda por cima um lado mais despojado que condiz muito mais com a ideia inicial do projeto, apresentando um lado instrumental novo e ajudando a fechar com chave de ouro (se estiverem corretos os releases de fim do LCD Soundsystem) a história de um dos projetos musicais mais icônicos dos anos 00.

13- Not In Love (feat. Robert Smith) – Crystal Castles

Havia uma Not In Love no cd do Crystal Castles que passava um bom pedaço do ano praticamente despercebida, completamente incapaz de competir com as highlights do maravilhoso segundo álbum da dupla. Foi com espanto então que recebi essa versão com Robert Smith, que vem aqui com a voz completamente limpa (tenha em mente que essa é uma faixa do Crystal Castles) numa versão que, embora mantenha a estrutura original da faixa, adiciona os vocais distorcidas de Glass apenas para pontuar momentos da letra, explode o refrão com uma batida bem mais encorpada que a original e conta com um dos vocalistas mais discerníveis da história emprestando sua voz eternamente associada à angústia adolescente a essa nova versão mais angustiante do instrumental anterior, fazendo dessa a melhor coisa que o Crystal Castles já fez e um dos momentos eletrônicos mais singulares do ano não apenas pela junção surpreendentemente eficiente do som do Crystal Castles com a assinatura vocal do The Cure, mas pela nova visão que essa faixa forneceu ao som avant-garde de um dos projetos musicais mais promissores que surgiram nos últimos anos.

12- Let’s Get Lost – Beck & Bat For Lashes

Aparentemente a composição dessa faixa foi feita pelo Beck. Aparentemente pois, em qualquer aspecto que se olha para essa faixa, parece um trabalho de Natasha Khan, desde o momento em que ela abre a faixa com seu vocal sempre impecável cantando “Touch me, I’m cold” até o fading final. Aliás, até mesmo os vocais de Beck dentro da faixa soam distantes se comparados com a clareza do vocal de Natasha. E é aí que entra o mérito de Beck que, dono de uma discografia invejável, sabe aproveitar como poucos os pontos fortes de suas composições. E ao ter consciência de que a voz de Natasha era o maior ponto forte dessa faixa, extraiu dela o máximo, numa de suas melhores composições em quase uma década, uma música quase etérea, com uma voz de sereia ornada por um instrumental algo gloom, um pouco gótico e tão belo que, sozinha, já justificou a existência do filme horrendo do qual faz parte da trilha sonora, o que por si só já é motivo para colocá-la entre os destaques do ano.

11- Colouring of Pigeons – The Knife

Quando saiu a notícia de que o The Knife lançaria uma ópera aquilo atraiu minha atenção. Não que eu estivesse realmente ansioso pela música em si, muito pelo contrário, mas queria ver o que ia sair de tamanha audácia, pois afinal eles são um duo eletrônico. Sim, esperei por esse álbum com em modo de ataque, não em modo normal. O que eu não esperava era que no fim das contas esse seria o primeiro álbum do The Knife que assumidamente mais que satisfez meus desejos positivos sem jogar água fria, já que, como esperava, a música em si foi feita menos para ser ouvida e mais para ser debatida, contando com um supertrunfo naquela que é, sem dúvida alguma, a melhor faixa de um grupo que já havia feito uma das melhores músicas da década passada. Com extensos onze minutos de um instrumental primal que deságua como ondas que se chocam contra rochedos e contando com um trabalho vocal que inclui canto e harmonia dignos de uma ópera conciliados com os vocais soberbos de Karin e Olof, foi ambição traduzida em forma de música, e apenas um duo com a mítica por trás deles como o The Knife seria capaz de dar um passo tão grande dentro da música atual.

10- Fuck You – Cee-lo Green

No dia que essa música caiu no youtube eu postei no twitter o link do vídeo com a frase: “Isso tem que ser hit”. E após vídeo, Glee, indicações ao Grammy e presença fixa em listas de melhores do ano da Grécia à Tróia, posso me sentir feliz de ter tido meu desejo atendido e ter visto o mundo ser brindado com um dos melhores hits dos últimos anos que não foi hit senão pelo brilhantismo da própria música. Pois mais importante que o vídeo da música ter sido um pequeno primor, que o uso da música num dos seriados de maior sucesso atualmente, que campanhas publicitárias, o que tornou essa música um hit foi a melodia que chuta bundas com seu ar retrô, a linha de baixo assassina e a letra divertidíssima no desalento porém cheia de dignidade entregue por uma das melhores vozes masculinas em seu segmento, uma soma de fatores com capacidade mercadológica quase inesgotável por, no fim das contas, trazer pras pessoas a melhor forma de superação possível: um enorme dedo médio com todo o carinho do mundo.

9- Sleep Patterns – Memoryhouse

Sleep Patterns, apesar de ser do incínio de 2010, ainda se mantém como incógnita, já que a banda memoryhouse ainda não lançou um álbum debut que mostre a que veio a banda. Mas como representante do ano poderoso que o Canadá teve e como representante do poder do estilo chillwave, foi provavelmente a música com mais cara de 2010 no ano inteiro. Contando com um trabalho delicado de cordas e um vocal assustadoramente limpo para o que seria comum dentro de instrumental que se propõe eletrônico, é uma faixa de simplicidade assustadora, simplicidade essa não no sentido de ser uma faixa de pouca carne, considerando que o espaço sonoro inteiro da faixa é sempre preenchido e há sempre uma surpresinha a cada turno que a faixa toma, mas simplicidade no sentido de ser uma faixa assustadoramente lo-fi, embora soe quase como uma lullaby alienígena, sendo deliciosamente atemporal em sua roupagem ligeiramente AC e um tanto quanto 90′s homemade. Mas tudo isso, todos esses truques antigos numa faixa nova, esse preciosismo, esse mistério, não seriam nada se não fosse, no frigir dos ovos, a capacidade que essa música tem de criar clima sem contudo perder o apelo pop, conciliando como nenhuma outra faixa do chillwave o olho técnico para o futuro e o tradicionalismo melódico.

8- All Of The Lights – Kanye West

Qualquer lista de melhores de 2010 que se proponha a ser levada a sério deveria por obrigação incluir essa música apenas pelo mérito do Kanye de ter conseguido juntar 12 nomes (o dele incluso) que representam facilmente o que há atualmente de melhor tanto em matéria de música antiga quanto de novidade tanto no pop quanto no mainstream. E para ser levada a sério de verdade, deveria incluir no top 10 essa faixa que, mesmo com um cast com gente do cacife de Elton John e Alicia Keys, constrói uma narrativa épica de um pai que só quer sua filha, tratando de permear a letra belíssima com uma imagética primorosa, fazendo concessões tipicamente pops dentro de uma de suas faixas mais hardcore que, no fim, demonstram o talento de Kanye como produtor, ao fazer com que cada participação reforce o poder da faixa sem com isso soterrar o próprio como mero coadjuvante em seu próprio trabalho, problema, por exemplo, que Jay-Z sofreu de entregar apenas o refrão para Alicia Keys em seu megahit Empire State of Mind ano passado, o que prova que essa não é uma tarefa fácil e que o sucesso de Kanye nessa faixa foi provavelmente o maior atestado de talento de um artista solo esse ano.

7- Broken Social Scene – World Sick

Aqui cabe um pouco de sinceridade: desde que saiu o álbum, World Sick nunca mais conseguiu ser a minha preferida do álbum, título que já foi de All To All, Forced to Love, Sentimental X’s e Texico Bitches atualmente. Mesmo assim foi a primeira faixa que tive contato e foi a única faixa dentre as minhas preferidas que sobreviveu à exaustão de execuções, já que, de todas, é a única que encapsula o que há de melhor em TODA a discografia da banda, começando com um trabalho de cordas e percursão gentil, com uma introdução longa que deságua num instrumental climático gentil que não morre nem mesmo quando o refrão explosivo de apenas duas frases que parecem não respeitar a explosão sonora que ocorre durante a repetição das frases, tendo tempo ainda de abarcar um interlúdio instrumental que ecoa o lado post-rocker da megabanda e um fading final quase tão longo quanto a introdução galopante e tão eficiente quanto, sem com isso deixar de ser uma gema de produção. Capaz de agradar tanto a fã-base da banda, acostumada com as costuras sonoras ambiciosas dos trabalhos antigos, quanto angariar novos fãs, capazes de reconhecer a beleza particular dessa faixa ou de meramente serem engolfados pela beleza crua dessa faixa, World Sick foi o returno triunfal de uma das bandas que deram a cara da música dos anos 00.

6- Chinatown – Wild Nothing

Essa música vai demandar o mesmo tipo de reflexão que coloquei em 1901 do Phoenix ano passado, com o adendo de que, ao dar play no vídeo, é preciso ter em mente que essa música foi feita por um cara e seu material caseiro apenas, junto de mais uns 3 projetos paralelos do cara e que durante todo o ano houveram diversas bandas dessa onda chillwave bem sucedidas, mas nenhuma capaz de criar algo tão belo quanto o momento em que o refrão dessa música chega e tudo que se ouve de letra, imersa no instrumental lúdico, é “We’re not happy till we’re running away”. Juventude capturada em 3:19 de música.

5- We Used to Wait – Arcade Fire

Nem parece que faz apenas 7 anos que o Arcade Fire lançou aquele que seria um dos, senão o álbum mais amado da década passada. Na verdade, após 3 álbuns, parece que a banda sempre permeou a história da música, já que até a mais fraca composição da banda possui um som distintamente poderoso, aquele tom de clássico, mesmo que invariavelmente as músicas da banda funcionem de forma limitada fora do contexto do álbum em que estão incluídas. E dentro do universo particular criado pela banda em The Suburbs, permeado pela constante dor do crescimento causada pelas intempéries das relações humanas que Win disseca pelo álbum, é na repetição tímida da frase “Hope that something pure can last” antes do final apoteótico da música e após a catarse lírica que é toda a parte anterior da música que Win trouxe à tona seu lado mais humano, frágil e capaz de criar identificação com qualquer pessoa que já sentiu a dor causada pela ação do tempo na vida do ser humano, uma experiência universal do ser humano traduzida com maestria pelo piano incessante e pela interpretação desse que é o melhor vocalista da atualidade. O ponto alto de uma banda que foi o ponto alto da música desde que surgiu.

4- Thieves – She & Him

Procuro sempre manter uma mente aberta em matéria de música, mas se tem uma coisa que a vida me ensinou foi a ter os dois pés atrás com atores que se engraçam pra cima da música, pouca importa aqui se são os prodígios Disney, feitos sob medida nas telas para bombarem na industria da música, seja no pedanstismo óbvio de atores de verdade que se jogam de cabeça em trabalhos pretensiosos. Nenhuma das categorias que falei, entretanto, servem para descrever She & Him, já que, após 2010, ficou claro que Zooey Deshanel, embora longe de ser uma atriz medíocre, encontra na música seus projetos mais relevantes. E Thieves, faixa de abertura do segundo álbum da banda, com sua melodia ligeiramente country, com um quê de anos 60 e uma letra acre interpretada com doçura, revelando uma atenção curiosa para detalhes na produção quase sem paralelos na música atual e um know how e amor pela música mais tradiocional, ecoando uma época onde música era feita exclusivamente por pessoas com talento para tal empreitada, pode muito bem colocar a banda da atriz num patamar que sua atuação até hoje jamais chegou perto de acenar para.

3- Tightrope (feat. Big Boi) – Janelle Monáe

O fato dessa mulher ainda não estar sendo consumida insanamente pelo mercado é a coisa mais intrigante desse ano tanto aqui quanto na lista de álbuns. Tightrope veio desde o começo do ano abrindo espaço para a recepção do monumental álbum da moça, a apresentação ao vivo dessa música no Letterman foi sem dúvida a apresentação do ano e, como carro chefe de um dos melhores álbuns do ano, Tightrope apresentava a voz estupenda da moça, que encontra diversas formas de mostrar versatilidade e potência dentro de uma melodia contagiante, acentuada pela guitarrinha motown e pela percurssão que nunca perde o foco, com uma letra deliciosa com as metáforas e rimas mais divertidas do ano [“I tip on alligators and little rattlesnakers/But I'm another flavor something like a terminator” ou “Some calling me a sinner/Some calling me a winner/I'm calling you to dinner and you know exactly what I mean” ainda estão para serem superadas], com o bônus de uma participação deliciosa de Big Boi, que tem seu melhor trabalho como convidade na carreira nessa faixa. Considere também que esse é o primeiro álbum da moça. Ainda acham estranho ela não ter sido alçada ao posto de next big thing?

2- I Didn’t See it Coming – Belle and Sebastian

Aqui vale uma verdade: quando Stuart Murdoch está no comando, até o mais descartável dos trabalhos que saírem do forno serão capazes de agradar. Isso pode ter deixado muita gente mimada para aceitar tão animadamente os trabalhos da banda pós The Boy With The Arab Strap e confesso que já havia desistido de esperar por algum sinal da genialidade da banda novamente mais do que em 3 ou 4 faixas de cada álbum. Mas quando o Belle and Sebastian trabalha um álbum inteiro em seu nível máximo como fez esse ano, a faixa de abertura do álbum já te desarma por completo, como essa faz com o dueto suave (e é curioso notar que o vocalista de uma das bandas mais respeitadas de todos os tempos cede a primeira fala a uma convidada após retornar ao controle absoluto da banda), com um refrão como nunca antes foi confeccionado dentro da discografia da banda e com uma produção que desagua devagar e nasceu atemporal, tornando-se desde já a melhor faixa de abertura de um álbum da banda (só por curiosidade, a faixa de abertura do primeiro álbum da banda é uma das 10 melhores músicas dos anos 90 para mim).

1- Dancing On My Own – Robyn

Lembro que na retrospectiva de 2008 falei que o material da Robyn ficava melhor quando trabalhado por outros que por ela mesma. Paguei com a língua. Dancing On My Own não é apenas uma peça genuinamente pop de prazer inegável, que funciona perfeitamente bem como completemento a um escopo absurdo de experiências humanas graças a um instrumental sem exageros infeccionado por um vírus desse revival new wave que sugou rna de células do eletrônico mais tradicional, fixando-se numa estrutura 4/4 e uma letra capaz de salientar melancolia como também de incendiar espíritos como nenhuma outra música conseguiu esse ano, como ainda vem com o bônus de uma interpretação tão singular carregada por uma voz tão única que, no fundo, você sabe que apenas Robyn poderia alçar essa faixa à tamanha gama de intertextos com as experiências de quem esteja ouvindo a música. E é sempre um alento para a alma e uma lufada de esperança quando a maior prova de talento no ano vem junto do material que, mesmo não sendo o mais espetacular-fucking-foda, não encontrou paralelo em matéria de mover quem entre em contato com essa música.

I get world sick

Everytime I take a stand! Por que sempre eu que tenho que passar por isso, por que eu que tenho que viver com a intensidade de um tiro quando eu sei claramente que não fomos feitos pra isso e fico me perdendo em esoterismo barato calculado e morno e quimicos efêmeros em busca de algo banal que eu possa realmente consumir sem me sentir mais estúpido do que já me sinto?

We got ladies born into dead ends,
men with the maybes looking for endings

I’m sick of the self loved loser who blessed me
the exit that rules the ruling of what will be

2009, a playlist

A questão é a seguinte, aqui também acabou tendo música pra caralho e vou fazer um top. Claro que certas coisas dificultam esse top, pois há projetos e projetos. Fever Ray e Emilie Simon lançaram álbuns onde as canções não vieram para funcionar solitárias, por mais impressionantes que elas sejam, o que tornaria injusto destacar uma dessas entre as maiores do ano em minha opinião. E por melhores que sejam os remixes das músicas do The Gossip e Saint Etienne, ainda tenho meu preconceito se a música remixada supera a original. Dito isso, aí vai a lista das melhores músicas do ano.
1 My Girls – Animal Collective
Cada vez que essa música começa a tocar em algum lugar, com Panda Bear declarando exatamente como o suficiente é bem menos do que aprendemos desde cedo dentro de uma sociedade baseada em acúmulo cego, adornado pela melodia hipnótica e pela construção ligeiramente tradicional de vocais contrastando com a extrutura sonora fluida, em algum lugar o mundo se torna um lugar melhor. Não é só uma música do caralho, é uma música importante, de uma mensagem simples mas que resiste ao desgaste pela universalidade e atemporalidade.
2 1901 – Phoenix

Não, eu não preciso escrever nada se vocês verem isso, só vou precisar se alguém, como eu, notar por vezes uma dúvida: será que não merecia estar uma posição acima?
3 Bad Romance – Lady GaGa
Joguem as pedras, mas na indústria da música ninguém caminhou tanto esse ano quanto Lady GaGa. E não por falta de méritos nem de ambições, embora só com Bad Romance as ambições chegaram na música além da imagem. Uma estudante exemplar da escola Madonna de artistas pop, Lady GaGa já disse que ninguém resiste à um bom refrão e nisso ela tava certa. E Bad Romance tem um refrão bom, uma entrada boa, estrofes boas, e por mais que discutam a imagem dela à exaustão, é com músicas meticulosamente bem produzidas como Bad Romance que ela se destaca do nicho de Shooting Stars como Katy Perry e se aproxima até rápido demais do nicho de Superstar, um ramo defasado mas que sempre mantém o respeito que merece.
4 Convinced Of The Hex – Flaming Lips
Provavelmente a escolha da faixa de abertura do Embryonic foi o momento mais simples na construção do cd. “I believe in nothing / And you’re convinced of the hex / That’s the difference between us” são as últimas frases da faixa e não dizem o que será o Embryonic, mas dizem o que fazer com esse álbum. E dizem sobre a faixa também, com bateria ligeiramente funkeada e guitarras distorcidas, interferências vocais estranhas, essa música é como algo nunca feito antes, recusando qualquer tag que possam tentar colocar sem com isso deixar de ser cativante. É algo inacreditável para qualquer pessoa acostumada com música, mas Flaming Lips não é uma banda que navegue por crenças. E sem uma bússola a banda ainda é capaz de criar algo incrivelmente belo.
5 Lizstomania – Phoenix
Phoenix ficou toda essa década fazendo música boa, e eles próprios tem músicas melhores que essa. Mas foi com essa música que eles saíram da zona inferior ao radar e chamaram a atenção. Abrindo o estupendo álbum da banda, a faixa é bem marcada, com um refrão primoroso e um ritmo frenético que vai das estrofes pras pontes suavemente graças às transições intrumentais e líricas bem gentis, sendo um estouro da primeira à última nota e mostrando que o Phoenix, por mais que não tenha um diferencial muito claro, tem o diferencial de ser uma banda realmente boa naquilo que faz, coisa rara hoje em dia.
6 Lust For Life – Girls
Não é meramente uma introdução a um dos melhores álbuns do ano. Lust For Life é o álbum inteiro condensado em parcos minutos, o que não apenas torna a faixa a mais memorável do álbum como também abre caminho para algo simples: quem (por alguma razão que eu não consigo imaginar) não gostar dessa faixa pode desistir do álbum, já que TODOS os pontos que destacaram a estréia do grupo californiano aparecem na faixa, desde as guitarras de garage rock dos anos 90 que servem a uma composição de sonoridade mais 60′s à letra emocionalmente simples e avassalodora cantada de forma rasgada. Se uma faixa realmente mereceu o nome de carro chefe esse ano, Lust For Life sem dúvida foi essa.
7 Black Hearted Love – PJ Harvey e John Parish
Uma supernova num álbum cheio de estrelas de pequeno porte, Black Hearted Love mostra o que a união do multinstrumentista John Parish e da absurdamente talentosa compositora PJ Harvey podem produzir. A parede de guitarras e o baixo sutil safado que abrem a música seguem até o fim, pontuando os vocais languidos de PJ no que seria uma das suas letras mais romanticas já construídas, o que nesse caso pode exemplificado pelas comparações com crime, pelo refrão explosivo no imperativo mesmo que ela diga “I’d like to take you” e pelo final caminhando num fade lento onde a fala da moça é quase descritiva em sua obsessão. Se o cd tivesse apenas mais uma faixa como essa já seria um dos melhores do ano com o nível das outras, já que essa é a faixa que PJ tentou fazer durante toda a década sem sucesso. E isso quer dizer muito.
8 Daniel – Bat For Lashes
Com tantas composições complexas dentro desse álbum, justamente a mais direta é a mais memorável. Daniel é uma faixa que cresce devagar, algo claramente teatral, e quando a cena completa é apresentada o impacto é avassalador. Os sintetizadores e a batida carregam a voz de Natasha por um clima sombrio, ligeiramente gótico, onde ela se esbalda na interpretação da letra, repleta de vulnerabilidade mas ainda assim num refrão encantadoramente esperançoso, com os vocais ligeiramente etéreos, fazendo da faixa uma interessante trilha sentimental macabra para o tema “Amor”. Sem dúvida alguma a música pop do ano.
9 Magnificent – U2
O maior erro do U2 na promoção do No Line On The Horizon foi ter colocado a única faixa abaixo do nível das outras como carro chefe do álbum e ter desperdiçado a chance de ter usado essa soberba faixa como carro chefe do álbum, tendo usado apenas quando o estrago já tava feito e as expectativas andavam baixas. Magnificent tem uma extrutura padrão, mas nas mãos do U2 uma extrutura padrão é um espetáculo de guitarras de um tempo onde o instrumental era bem mais valorizado e de vocais capazes de colocar um cão morto aos pulos. Uma faixa assim teria elevado a expectativa do álbum ao nível que ele realmente merecia e ele não seria carregado pelo nome da banda, mas sim pela qualidade das músicas.
10 Zero – Yeah Yeah Yeahs
Mesmo o mais mente aberta não deve ter entendido o que significou o começo do It’s Blitz, pois quando Karen O avisou para colocar seu couro foi o momento em que a festa começou. E daí pra frente a faixa só continua seu ritmo frenético, com muitos mais truques de produção que qualquer faixa anterior da banda, com bateria marcada para a pista de dança e os vocais sensuais de Karen O servindo maravilhosamente bem para a proposta dançante do grupo, o que não significa que essa faixa não seja grandiosa o suficiente para maravilhar no palco. Versátil, envolvente e divertida como nenhuma outra do ano, Zero foi a bússola da nova direção que o grupo tomou a um som mais divertido e nem por isso menos empolgante.
11 Moth’s Wings – Passion Pit
Passion Pit fez um cd inteiro de singles, mas a faixa mais afeiçoável é aquela que vem justamente mais delicada. Diferenciada do som do resto álbum que flerta com as tendências associadas à juventude, Moth’s Wing é uma parede de sintetizadores construindo uma faixa grandiosa da introdução ao desfexo, com harmonias vocais delicadas e um clima animador, despida de afetações e construída com um preciosismo estonteante que a cada audição se revela mais envolvente.
12 Islands – The XX
Foi difícil escolher uma faixa do álbum que pudesse merecer destaque entre as outras, mas seria ainda mais injusto que não se colocasse uma entre os destaques do ano. E o trabalho aqui era escolher qual das diversas qualidades do álbum foi a mais recompensadora, e a escolha de Islands se baseou na escolha particular da sensualidade. E a guitarra sem vergonha dessa faixa, aliada aos vocais blases de Romy dialogando com os vocais frágeis de Oliver fazem dessa não apenas a faixa mais sensual do álbum, mas a faixa mais sensual do ano.
13 Songs Remind me Of You – Annie
Richard X é um mago de texturas, mas aqui ele realmente se superou. O trunfo aqui foi ter feito a faixa mais dançante do catálogo de uma artista que era cultuada na esfera dance. Trabalhando a sonoridade eletropop oitentista com truques típicos da terra da moça, Songs Remind Me Of You é como se Royksopp e o Human League de Dare! gerassem uma filha ligeiramente tristonha, mas que nem por isso perdesse da cabeça a idéia de que a melhor saída para a fossa é uma boa pista de dança.
14 Summertime Clothes – Animal Collective
Aqui eu novamente abro espaço para ser criticado pela colocação: Avey Tare é de longe o melhor vocalista no grupo. E se há quem arraste asa pro Noah, bem, assumo que pelo trabalho solo dele é possível que o que de mais acessível haja no trabalho do Animal Collective venha dele, mas estamos falando de um grupo que canta sobre bases eletrônicas, e é na entrega de frases como “I want to walk around with you” que Avey Tare traz com nada maior que docilidade que surge um dos motivos do porquê o Animal Collective é o grupo mais bem sucedido da década, artisticamente falando. O elemento humano dentro da banda nunca é esquecido. E isso é ponto de Avey somente.
15 French Navy – Camera Obscura
Campbell é uma liricista cerebral até demais, e é interessante notar que seu arsenal, que inclui cinismo dos bons e contruções que deixam claro o lado dela de Sou mais espera que vocês, possa funcionar tão bem numa faixa que desliga o racional e apela para o emocional, pois em 30 segundos toda a história do encontro foi narrada e daí pra frente é só entender o que fazer com isso. E dessa vez, talvez pela doçura do trabalho de cordas que coroa a música ou pela bateria girl group 60′s, Campbell pendeu para o lado açucarado, o que só fortaleceu essa que é a faixa mais doce do ano.
16 Hooting & Howling – Wild Beasts
O começo já traz o falsetto delicioso de Hayden chamando a atenção mais do que qualquer instrumental poderia. Mas quando os intrumentais aparecem a faixa fica ainda mais forte, confiando na guitarra que praticamente dialoga com o vocal durante toda a faixa para construir uma faixa que vai a cada momento ganhando energia até que chega num final apoteótico, que embora tenha estrofes repetitivas por boa parte, são construções vocais que não apenas possuem força como são imageticamente fortes o suficiente para reverberarem na mente muito depois do término da faixa.
17 Dog Days Are Over – Florence + The Machine
O buzz ao redor do trabalho de Florence Welsh não foi injustificado, como essa faixa pode demonstrar. Uma vocalista de primeira com um talento para entregar as letras a cada momento como a letra demanda, de interpretação inteligentemente enérgica, cada afetação apenas contribui para o resultado final da faixa ser maior que a idéia em si. Como se não bastasse o talento da vocalista, a composição é adornada por um trabalho de cordas delicado e delicioso ao redor da cacofonia que engrandece a faixa, fazendo com que a atenção na faixa seja sutilmente renovada a cada novo turno que a faixa toma, e com o tanto de transições dentro dessa faixa, foi um trabalho nada menor que incrível o que foi atingido aqui.
18 People Got a Lotta Nerve – Neko Case
Essa é uma daquelas faixas country capazes de cruzar as barreiras que normalmente sufocam o nicho e se tornar uma boa lembrança do que faz com que esse terreno sempre se renove, já que essa faixa flerta mais com as mulheres de violão da virada da década de 80 que com as crossovers do country music que inudaram a virada dos anos 90. Além disso a ruiva surpreende com letras que só revelam o que ocorre lá pela metade da faixa e tragam o ouvinte pela curiosidade e pela voz incrivelmente gostosa da moça. Forte do começo ao fim, People Got a Lotta Nerve ainda tem a vantagem de, se deixar no seu player no repeat, vai ouvir até perder a conta sem cansar. Testem, garanto que não vão se arrepender.
19 Eet – Regina Spektor
Far foi um álbum onde Regina trouxe o aprendizado dos anos anteriores na composição pela primeira vez na sua carreira, auxiliada por um time cavalo de produtores. Mas se isso soa muito jugo seguro, podem crer que não é o caso. Eet é uma faixa que, assim como o Begin to Hope, apoia-se não só no piano da moça, mas em toda uma extrutura de estúdio, mas dessa vez a moça traz cada ítem usado na composição para que seu piano e sua voz sejam vistos maiores e acima, e considerando que ela é uma vocalista habilidosa e uma pianista incrível, podem acreditar quando digo que o resultado é algo positivo. Mais que isso, recompensador.
20 Saga – Basement Jaxx
Ano passado falei que Santigold faria melhor se saísse da esteira da M.I.A. e fizesse algo próprio. Quem diria que a união dela com Basement Jaxx é o que sinalizaria para o quão boa essa idéia pode ser. O flerte com o reggae soa até irônico quando a faixa chega no seu refrão, onde ela martela a a frase “You’re just limiting all the possibilities” em meio às batidas alucinadas que o duo usa ao redor de seus vocais curiosos mostrando que, livre de uma tentativa de rótulos, seu trabalho pode ser tão bom quanto o da cingalesa. E embora não saiba de quem foi a idéia de flertar com um som mais reggae a principio, é a presença de Santigold que disparou esse gatilho. Nesse caso, esse foi sem dúvida o trabalho em equipe mais aberto da carreira do duo. Não bastasse ser uma ótima faixa, ainda é uma que vem cheia de boas possibilidades para o futuro.

As outras faixas que mereceram destaque esse ano:

Try Sleeping With a Broken Heart – Alicia Keys
The Spell – Alphabeat
Brothersport – Animal Collective
Anthonio – Annie
Walkabout – Atlas Sound
My Turn – Basement Jaxx
Siren Song – Bat For Lashes
Deli – Delorean
Stilness Is The Move – Dirty Projectors
Nothing To Do With You – Emilie Simon
Rainbow – Emilie Simon
Standing On The Shore – Empire Of The Sun
If I Had a Heart – Fever Ray
Laura – Girls
Heavy Cross (Fred Falke Remix) – The Gossip
Crazy/Forever – Japandroids
From Africa do Malaga – JJ
In For The Kill – La Roux
Sattelite Heart – Metric
This Tornado Loves You – Neko Case
Chasing Pirates – Norah Jones
Sleepyhead – Passion Pit
Mommy Complex – Peaches
Chasing The Tear – Portishead
Consider Me Gone – Reba McEntire
The Calculation – Regina Spektor
This Must Be It – Royksopp
Method Of Modern Love – Saint Etienne
Only Love Can Break your Heart (Richard X Balearic Remix) – Saint Etienne
Arrow – Tegan and Sara
Crystalised – The XX

And the day it ends and there’s no need for me…

A garota eu conheci em 2005. A música euconheci em 2006. Foi nossa canção juntos. Ela só se vestia de branco, eu era alguém que devia sair da adolescência. Mas com ela eu virava criança novamente. Nos conhecemos ao vivo em 2007, mas sinceramente foi desnecessário, eu já estava preso à ela e me soltar só mesmo pela morte, certo?
Não, a vida pode fazer isso com as pessoas. Eu reconheço agora como esses 3 últimos anos foram fantásticos a seu modo, onde vivi como nunca. Mas eu reconheço também que não vivi 3 anos, vivi 2, e existe um ano de fatos que eu AINDA não vivi, borbulhando como uma bomba relógio para despertarem sensações que eu não vou entender no ato, e ficarei escravo disso disso já que o gatilho mais sutil pode descambar uma sucessão de novidades velhas. E essa bola de neve só tende a aumentar nessa sociedade alucinante quando se é jovem.
Pra quem viveu a depressão por achar que o futuro nada mais tinha de relevante, taí um bom aprendizado de algo ainda mais desesperador: quando o passado vira novidade. E se a idéia de morte é o que causa a desesperaça no futuro, é a idéia de vida que causa o medo do passado. E taí algo com a qual um depressivo suicida crônico não convive: medo. E quer saber, pela primeira vez desde que fui curado eu abandonei o quase das frases que tanto disse por aí: “Não era eletrizante, era confortante. Quase valia a pena.”

2009, a discografia.

Diferente de 2008, 2009 eu realmente fiquei outsider. E dessa vez, apesar das listas bem singulares que vieram por aí, pouca coisa realmente me chamou a atenção nelas como em 2008, onde descobri uma caralhada de bons cds fuçando nelas. Esse ano, amigos me deram recomendações bem mais gratificantes (Passion Pit e XX, por exemplo) que listas. Mesmo assim a lista vai sair consideravelmente mais curta e o motivo é simples: não ouvi 2009 em 2009. Uma amostra, meu top 10 dos últimos 12 meses do last.fm vai explicar o que houve: 1 The Cure 2,830 / 2 Saint Etienne 1,186 / 3 Sufjan Stevens 1,136 / 4 My Bloody Valentine 1,121 / 5 Belle and Sebastian 935 / 6 Loreena McKennitt 838 / 7 Air 832 / 8 The Beatles 792 / 9 Rilo Kiley 786 / 10 PJ Harvey 780. Apenas PJ Harvey desse grupo lançou material inédito, e mesmo assim não contabilizado no nome dela em meu last.fm, já que foi uma colaboração com John Parish, o que significa que ouvi mais as músicas antigas dela que o projeto novo que ela lançou esse ano. “Ah, mas o Saint Etienne lançou coisa nova”… sim, duas músicas. O resto foi remix. E aqui estou falando de material inédito. Por mais que tenha amado de paixão o Foxbase Beta, ele não constará nessa lista. Mas fiquem tranquilo, pois fiz questão de deixar apenas um ou outro guilty pleasure que realmente não ficou no nível desse cd, os outros realmente recomendo fervorosamente.

Os 10 +:
1 Merriweather Post Pavilion – Animal Collective
No período de 00-09 provavelmente apenas dois anos foram simples de se retirar um álbum do ano: em 2004, quando o Arcade Fire desmantelou barreiras com música maior que opiniões e em 2009, quando, após uma década inteira de strikes, o então trio Animal Collective lançou seu álbum mais coeso, eficiente e palatável, funcionando como uma peça única de composições que quebram expectativas a cada guinada numa direção que o álbum tome, como quase todo álbum do Animal Collective até então. Rico em imagens, em texturas, o álbum costura algo inacreditavelmente doce através de sons hipnóticos que puxam o ouvinte a um estado de encantamento que é claramente não datável e sem prazo de validade, como quase todo álbum do Animal Collective até então. Além disso, Merriweather Post Pavilion acena para uma realidade que transcende a atual, falando de coisas simples numa embalagem sonora cheia de força, que nos confronta sobre o que estamos fazendo enquanto nos mostra o que estamos perdendo, sendo mais que um atestado de talento, mas uma obra com vida própria. E nesse caso, é a primeira vez que o Animal Collective chega a esse resultado. E provavelmente a primeira vez que uma banda chega desde, bem, desde o Funeral.

2 Embryonic – Flaming Lips
Confuso, estranho, fragmentado, inchado, desleixado, Embryonic é um álbum que, assumo, talvez esteja superstimando, já que poucos álbuns tão cheios de palavras pejorativas necessárias para ser descrito saíram do forno. Mas Embryonic, assim como o Kid-A, sofre do mal de mudança de direção: Flaming Lips passou uma década priorizando composições onde a assimilação era instantânea e sem fronteiras entre ouvintes. Embryonic, por outro lado, apresenta faixas que mais parecem idéias incompletas, os vocais parecem não respeitar os intrumentais, as manipulações nas gravações claramente dificultam o acesso ao álbum e voz de Wayne não surge em uma boa parcela das faixas. E em meio à essa cacofonia, se suas reservas baixarem, você entrará em contato com belezas inegáveis como The Sparrow Looks Up At the Machine, Powerless e Worm Mountain convivendo com anomalias como Convinced of The Hex. Nada convidativo, Embryonic testa o ouvinte sempre que pode, mas o ouvinte que se aventura descobre um álbum rico, visceral e acima de qualquer palavra pejorativa que o defina, belo.

3 Wolfgang Amadeus Phoenix – Phoenix
Com um nome pretensioso desses é de estranhar que esse álbum do Phoenix não traga realmente nada que nunca tenha sido feito antes, diria até que melhor por outras bandas dessa década no filão do indie mais dançante. E eis aqui em terceiro lugar do ano. Não, isso não é atestado de mediocridade de 09. Essa minha escolha, fácil por sinal, vem do fato que, se normalmente uma banda indie, digamos, capturava um raio uma vez ou outra dentro de um álbum que não fazia justiça aos seus melhores momentos, foram raras as bandas que apresentaram um álbum onde cada faixa é meticulosamente gerada, onde cada nota em cada faixa funciona para o prazer do ouvinte, onde cada palavra vem bem vinda. E se ainda é possível enumerar as melhores faixas do álbum não é por haverem fillers, mas por essas se destacarem facilmente no catálogo de músicas do ano inteiro, singles ou não. Phoenix pode não ter feito o álbum mais incrível do ano, mas sem dúvida alguma fez o mais fácil de se apaixonar por.

4 The XX – The XX
Isso é mesmo uma estréia? Fico arrepiado só de imaginar que esse álbum é apenas a promessa da banda, já que até mesmo a faixa Intro é de uma beleza simplista que derruba qualquer resistência que até o mais purista old school possa ter. Trazendo o pós punk pros anos 00′s, colocando só o básico dentro de cada faixa, o que torna cada instrumento e cada passagem vocal ainda mais memorável, é simplesmente impossível escolher uma faixa como a melhor. E o casal de vocalistas é um achado, já que a sensualidade de cada faixa só aumenta com os duetos/duelos das faixas nuas que destilam idéias sobre o tão desgastado tema “A 2″ como nada antes que eu possa recordar. Oka, o intrumental lembra um Young Marbel Giants sim, mas fato é que essa música é menos cerebral e mais animal que a do grupo dos anos 70/80, e The XX assim, funciona como trilha de muito mais comportamentos humanos, pois seja fudendo ou sendo fudido, nenhum outro som de 2009 vai traduzir melhor as sensações internas que esse.

5 No Line On The Horizon – U2
Somente o fato de muitas novas bandas terem mimetizado bem os truques do U2 em suas assinaturas sonoras pode explicar que uma banda consistente e incrível como essa possua uma parcela tão grande de detratores. Mas por mais que essa parcela aumente, com cada novo álbum lançado esses irlandeses mostram porquê são uma das bandas mais influentes da história do rock. E mesmo assim No Line On The Horizon me fez cair o queixo. Falar que é grandioso, levantar os méritos de Bono como vocalista, trazer à tona o talento de The Edge para criar linhas de guitarra memoráveis na primeira audição, tudo isso é pequeno perto dos méritos desse álbum onde, apesar de quem acompanha o trabalho da banda conhecer cada truque deles mesmo surdo de um ouvido, cada faixa soa como uma composição digna de figurar entre os melhores momentos da banda, com marcações claras, o melhor vocal de bono desde o Achtung Baby e letras como não apareciam desde o Joshua Tree. No Line on the Horizon não é nada menos que o melhor álbum da maior banda da atualidade em quase 20 anos e a única coisa ruim nesse álbum é que já nasceu mal falado por detratores cegos. Pena.

6 Two Suns – Bat for Lashes
Depois do debut, ficou claro que Bat for Lashes não era um projeto meramente musical. A música servia como um dos aspectos de um projeto multimídia ambicioso de uma artista talentosa, uma combinação sempre recompensadora. Mas verdade seja dita, as pretensões da Natasha sempre são maiores que os projetos musicais que são o carro chefe de suas idéias. E embora Two Suns sofra desse mesmo mal (ambição demais até mesmo para seu talento), não deixa de ser recompensador ver uma artista se esforçar para agradar quem ela sabe que consumirá seu projeto, se aventurando para contar histórias lindas esmeradas por composições viscerais, utilizando de um arsenal musical invejável (a quantidade de instrumentos que a moça toca vai do básico de guitarra e baixo à citara) e AQUELA VOZ. Sem dúvida o grande diferencial, cada interpretação da cantora vem rasgante, não devendo em absolutamente nada às mulheres que seu som claramente presta tributo (Tori Amos, Kate Bush), Natasha compôs novamente um álbum nada datável, repleto de pérolas pop que podem até causar estranhamento, mas não indiferença.

7 The Big Machine – Emilie Simon
Sem dúvida alguma o cd que mais me surpreendeu no ano. Era admirador do trabalho da cantora, mas nem soube do lançamento na época em que ocorreu, sendo avisado a tempo de correr atrás do álbum e notar que aquela Emilie Simon que eu conhecia era uma mentira. Foi-se a voz gentil e os arranjos delicados, quase éteros que tanto admirava. Em seu lugar havia surgido uma intérprete incrivelmente poderosa, compositora opulente, revestindo cada composição de um arsenal quase orquestral que contava toda uma obra usando de instrumentais abundantes que mesmo assim soam como nada maior que uma moldura para a voz explosiva da francesa. E se antes seu trabalho podia ser visto como Emiliana Torrini encontra o Vespertine da Bjork, a nova Emilie Simon soa como se Kate Bush tivesse gravado o Post da Bjork. E por mais que ambas tenham seus meritos, essa nova faz a antiga empalidecer em absolutamente todos os sentidos que se possa comparar.

8 Fever Ray – Fever Ray
Dou todo o direito a quem quiser de me criticar com a colocação que farei, mas The Knife, até então, é um projeto muito overstimado. Sim, eles fizeram uma das melhores músicas da década, mas nem mesmo Silent Shout, trabalho mais coeso do duo, era livre de críticas, e se tornou cansativo mais rápido do que esperava. Mas qualquer problema que eu tinha com The Knife se foi com o trabalho solo da vocalista Karin, o Fever Ray. Cumprindo a promessa sonora do Silent Shout, Fever Ray é um projeto eletrônico único E memorável, que passeia por esferas musicais da era do rock, do post-rock ao new wave, tendo como principal atrativo uma das vocalistas mais reconhecíveis da atualidade cantando soberbamente faixas sombrias e/ou melancólicas, sendo no todo um monolito musical difícil de ser ignorado após ser descoberto e apontando para novas possibilidades dentro de uma das áreas mais exploradas da música atual de forma sutil, jamais tirando a atenção para o que realmente importa: boas faixas que compõe um álbum estupendo.

9 It’s Blitz – Yeah Yeah Yeahs
Da categoria de álbuns gostáveis, Yeah Yeah Yeahs já é velho conhecido. Fever to Tell é um dos álbuns mais fáceis de se apaixonar feitos nessa década, e não são poucos os méritos da banda em mudar o curso da banda a cada álbum desde então. Mas se de Fever to Tell para Show Your Bones a mudança foi pesada, de Show Your Bones para It’s Blitz a mudança foi como uma lufada gigantesca de ar fresco. Não por um som menos denso, já que o noise famoso da banda ainda existe até nas faixas mais gentis. O ar fresco vem logo na abertura, onde a banda se solta como nunca antes, apelando para o eletrônico com força junto ao seu som enérgico, e mesmo que ocasionalmente o álbum perca o fôlego não há como negar que quando arranca, o álbum decola despretensiosamente rumo às pistas de dança (sim, as faixas uptempo são de longe as melhores), tão energicamente que possa ser desgastante, mas jamais fraco ou tedioso.

10 Album – Girls
Nenhum álbum esse ano começou tão bem quanto esse. A banda de San Francisco desaguou rapidamente suas guitarras e fez questão de mostrar que seu álbum não seria um mero álbum que cheira à saudosismo de tempos que os integrantes não viveram. E Lust For Life representa bem o espírito do álbum, tão bem que nenhuma outra faixa é capaz de torcer a cabeça de quem for ouvir o álbum. Mas não por falta de bons atributos, já que a sonoridade que pega o lo-fi dos anos 90 e traveste de rock californiano dos anos 60 é algo pouco datável e certamente tem seu charme. Além disso, apesar de não ter uma das vozes mais deliciosas, a forma como canta frases como “You’ve been a bitch/I’ve been an ass/I don’t wanna point the finger/I just know I don’t like this” e torna isso de uma doçura incrível é algo que poucas bandas tem atualmente a seu favor. Culpem fatores como idade, a história da banda, o que for, só sei que Album é um álbum cuja a anacrônia é seu maior mérito e cuja simplicidade é sua maior virtude.

Outros álbuns que SEGURAMENTE valem a se pena ter, por ordem alfabética de artista:

The Element of Freedom – Alicia Keys ****
Don’t Stop – Annie ****1/2
Logos – Atlas Sound ****
Scars – Basement Jaxx ****
My Maudlin Career – Camera Obscura ****
Bomb In A Birdcage – A Fine Frenzy ****
Lungs – Florence + The Machine ****1/2
Veckatimest – Grizzly Bear ****
Post-Nothing – Japandroids ****1/2
JJ nº2 – JJ ****
La Roux – La Roux ****
Middle Cyclone – Neko Case ****
The Fall – Norah Jones ****
Manners – Passion Pit ****1/2
I Feel Cream – Peaches ****1/2
Far – Regina Spektor ****1/2
Junior – Royksopp ****
Santihood – Tegan and Sara ****
Two Dancers – Wild Beasts ****1/2

EPs que merecem marcação:

Ayrton Senna EP – Delorean
Fall Be Kind – Animal Collective

Os que fizeram barulho e não ouvi até hj:

Only Built 4 Cuban Linx… Pt. II – Raekwon
Blue Record – Baroness
Monoliths & Dimensions – Sunn O)))
Revolution – Miranda Lambert
Journal For Plague Lovers – Manic Street Preachers
I And Love And You – The Avett Brothers

Atenção em excesso que ainda não entendi (posso mudar de opinião):

Bitte Orca – Dirty Projectors
Sabe quando você vê que a coisa é bem intencionada, que tem coisas realmente incríveis ali no meio, mas que no fim das contas o pretensiosismo da coisa fica óbvio e por melhor que seja você acaba achando que foi pouco. Pois é… Não, não é ruim. Mas acho que dá pra achar mais de 100 álbuns na década melhores que esses, pitchfork. Dá pra achar pelo menos uns 10 esse ano, né?
Wilco (The Album) – Wilco
Sinceramente, prefiro não comentar muito já que Wilco tem dois dos cds que pessoalmente coloco entre os melhores já feitos. O que, refletindo, só torna a situação desse álbum ainda mais constrangedora. Só digo que por causa de álbuns assim tenho que ouvir que Wilco é banda de quem vai pra show pra descansar.
The Blueprint 3 – Jay-Z
Pelo menos não é um fiasco tão grande quanto o Blueprint 2. Naquele o maior mérito era a Beyoncé, nesse é a Alicia Keys.
The Fame Monster – Lady GaGa
Desistam, ela NÃO é artista de álbum. 4,5 estrelas pro the Fame, allmusic? 4 pra esse EP? Pelamor…
Love vs Money – The-Dream
Um 83 no metacritic para um álbum que encapsula tudo que o hip-hop tem de mais descartável atualmente? Really? Cheguei a me render até por um ou outro som do álbum, mas era só prestar atenção na breguice sem fim das letras que a coisa ficava realmente intragável. Sério, não.

Lembrando:  opinião de um leigo!

ps: Trollei, era álbum pra caralho!

Summer feelings

Warm inside, wet outside, full of butterflies and pretty much empty.

Estréia. MINTE!

Sim, eu sou fã da Annie, acho Anniemal O álbum pop dos 00′s e Don’t Stop será muito bem digerido em posts futuros, mas por agora só preciso dizer que Annie vive e nós agradecemos.

E amanhã, The Spell do Alphabeat pra vocês. (:

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