Sete da noite, os cigarros estavam acabando. Daniel sabia que precisaria ir naquela padaria que a essa hora estaria lotada de pessoas que saiam dos seus empregos e, sinceramente, não iria atrapalhar a alimentação dos outros com o cheiro de cigarro de suas roupas. Acendeu o penúltimo cigarro do maço amassado e pôs-se a observar a rua durante o apagão. Estranho como as coisas continuavam a acontecer numa cidade perigosa mesmo sem o conforto da luz. Pessoas caminhavam pelos jardins, estacionavam em locais ermos, sombras emitiam sons, galopes vinham do apartamento de cima, tudo continuava o mesmo.
- Eu devia ficar cego e não me deter pelo que enxergo.
Seu antidepressivo também estava acabando. Para evitar a farmácia, Daniel tomava dia sim, dia não, contra ordem médica, justificando para si com o fato de ter voltado a beber. Não havia muita bebida cercando-o, mas sua rigidez não trabalhava com diferenças entre ruim e péssimo. Tons de cinza denotam apenas indecisão. Havia claro uma margem de tolerância quando se tratava de outras pessoas, mas em respeito à individualidade de cada um.
O jovem se dirigiu à cozinha e encheu um copo de vodka, pegando o último cigarro com o maço e indo até a mesma janela que estava, com vista para a padaria. Tirando o cigarro com os lábios, jogou o maço fora pela janela e nem bem acendeu o cigarro, já estava bebendo o primeiro gole da vodka pura. Com a mudança rápida de temperatura, um aquecimento seria bom, especialmente antes dos pais chegarem. Fim de semana chamava, mas sem emprego, precisava esperar pela ajuda dos pais antes de sair.
- Droga de espera.
Uma caminhada rápida até o espelho trouxe a ele um certo conforto. Sem eletricidade era interessante se olhar no espelho, os cabelos escuros não contrastavam tanto com a pele, suas formas interagiam melhor umas com as outras sem a luz sobre as cicatrizes da infância, era interessante. Conseguia ficar sem a camisa com mais facilidade nessas horas, quando não temia a magreza que a luz mostrava nem a falta de energia em seu olhar. Mas o passeio por sua pele teve que esperar com o toque da campainha.
- Daniel, abre…
Talvez por efeito da vodka bebida rápida não notou os passos que vinham de cima irem para baixo, terminando em sua porta. Os passos terminavam nas pernas da colega de ônibus de todas as manhãs, que estava arrepiada pela escuridão do corredor. Daniel abriu a porta e deu guarita para a amiga entrar.
- Você podia ter caído
- Precisava te mostrar isso.
A garota sacou o celular e mostrou a mensagem recebida a menos de 10 minutos.
- “Indo te visitar”? Ele não tava preso?
- Falou bem. Tava. Agora ta solto e eu não sei o que fazer. Pensei que você tivesse algo no seu curso pra eu me proteger
- Porra, você sabe que eu só começo o curso em Julho.
- Tá, mas o quê que eu faço.
- Liga pra polícia primeiro, né, sua anta – falou isso com um certo carinho que poucos tinham acesso, batendo de leve na testa da moça aflita.
A ligação pouco trouxe de conforto para a moça, que ouviu coisas sobre protocolo, dicas de segurança, etc. Sabia onde acharia conforto maior e foi até a cozinha, deixando Daniel na sala. Ao voltar, a sala estava vazia e a moça se dirigiu ao quarto do rapaz com o copo tinindo em seus lábios devido ao gelo. Ao chegar lá, viu a luz da lanterna iluminando Daniel, uma tesoura e uma pequena quantidade maconha sobre um papel de trevo.
- Daniel, cê tá louco? Seus pais não chegam agora?
- Fiquei sem cigarros, e você sabe que eles não ligam.
- Mas precisa jogar na cara deles assim?
- Eles não ligam.
O tom incisivo denotava o fim daquela conversa.
- Quer que eu busque vodka pra você também?
A resposta foi um aceno de copo de Daniel, indicando que ele havia enchido o copo durante o telefonema, já que gotas já começavam a escorrer pelo vidro do copo. A garota ficou calada enquanto o jovem bolava o cigarro, bebericando de leve sua vodka. Observava as mãos do garoto e como seus cabelos ficavam melhor longos, ao menos no contraluz gerado pela combinação janela e apagão. O garoto ficou alheio às observações, de costas para a guria e plenamente concentrado. Quando enfim acendeu o beck, o rapaz deixou a luz do isqueiro iluminar sua expressão carrancuda um instante, o que preocupou a menina, mas com o fim da luz do isqueiro a voz suave do rapaz envolta em fumaça acalmou a garota do sinal anterior.
- Então Jô, quê que você vai fazer quanto a isso? – falou estendendo o beck.
- O quê que você acha? Vou conversar com meus pais e me mudar de novo. – falou aceitando.
- E vai ser assim sempre? – falou pedindo o beck de volta.
- Que escolha eu tenho? – falou passando.
Daniel tragou teatralmente, movendo a postura na cadeira para ter acesso a algo no meio das pernas que antes Joana não havia notado. Sempre soube que o rapaz era um daqueles gays que dormiam com as amigas vez ou outra, e seu próprio interesse sexual no rapaz a assustava, deixando a moça absolutamente tensa ao notar onde as mãos do rapaz repousavam, mas Daniel não pôde notar, entretido com a fumaça dentro de si.
- Se preparar pra ele… – Daniel sorria na escuridão, o que Joana não pôde ver e diminuiu o impacto do ato seguinte, quando tirou a arma do meio das pernas, que estava oculta pelas sombras e sacudiu no ar. Imediatamente a moça foi até o rapaz, subindo o joelho sobre a cadeira giratória onde este estava sentado e segurando a arma e retirando das mãos moles do moço, com um ar assustado. Daniel apenas continuou tragando.
- Seu lunático! Isso nem seu é, pára de mexer com isso. E se te pegam com isso, você lembra do que seus pais fizeram quando você descobriu que eles tinham isso em casa pra proteção. PROTEÇÃO!
- Eu vou proteger você então, se você não quer se proteger… – falou colocando o beck na boca dela.
- Idiota! – Joana tragou com fúria – Eu sei me proteger, obrigado. E sei o que vai acontecer se você brincar de meu marido.
- Aí que você se engana. Nunca provou. – falou levando o beck novamente à boca da moça.
- Há há, muito engraçado.
Por pouco ela não engasga, na verdade. E ao notar a maciez chegando dentro de si, a garota se dirigiu à janela para fumar um cigarro comum. Daniel viu a luz do isqueiro enquanto fumava o resto do seu beck, observando a moça no contra luz da janela. Ficou um tempo sentado até o seu cigarro acabar, indo até a amiga implorar por um cigarro comum, mas, como que um senso de humor macabro do destino, começava a abrir a boca para a amiga e se acostumar com a luz, quando a luz voltou, mas com intensidade sobrenatural, explodindo a luz do poste à frente e a luz de seu quarto, incendiando a pupila mais que dilatada do rapaz, que sua cabeça traduziu com uma dor excruciante e latejante e seus olhos como a mais completa escuridão. Apenas a voz de Joana se fazia sensível.
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Daniel é uma incursão num rumo mais familiar, embora ligeiramente esvaído do que costumo escrever. A idéia inicial é de um conto pornô, mas sempre começo a escrever sem saber onde vou chegar. Vamos ver, né?