Havia uma sensação terrível de agonia naquela escuridão flamejante em seus olhos. Seja lá o que puseram naquela seringa, a dor diminuía para um incômodo, quase uma coceira, mas a idéia de tirar a venda e coçar os olhos ainda soava drástica demais para tal pequeno incômodo. Ouvia a voz de seus pais no carro, ambos tentando dar conforto, algo que ele admirava, mas não dava a mínima sem conseguir estruturar direito suas idéias por causa do sedativo. Só queria sua cama e nenhum zumbido.
Joana ajudou a subida pela escada que ele conhecia com a palma de sua mão, e Daniel notou o cheiro ainda forte do beck na menina. Quantas horas tinham se passado? Parecia uma eternidade, mas uma eternidade pequena para apagar as marcas do que estava acontecendo naquele momento fatídico. Lembrou da arma e um medo invadiu sua alma de que seus pais soubessem do que houve antes da energia voltar, mas um arrepio de Joana parou as reflexões de Daniel, que notou que estava com o nariz estupidamente próximo da garota. Um sorriso bobo apareceu em seus lábios pela primeira vez desde que queimara as retinas e seguiu com o rapaz até a soleira da porta.
- Eu conduzo daqui, Jô.
A voz de Diego confortou-o. Seria bom ter um homem que o carregasse um pouco, aquela alta exposição à Joana começava a ficar cansativa. E sempre era bom ter as mãos ao redor de Diego por um tempo, ainda mais sedado, quando poderia esconder por um tempo relativamente maior uma ereção e prolongar o tempo de contato. O benefício viria quando estivesse só e menos mole.
Diego era um ex de Joana que manteve a amizade com a moça quando terminaram, sem uma razão aparente. Segundo ela, não havia mais algo que os mantivesse junto, o que Daniel sabia que significava que havia se tornado sexo vazio. Não que o rapaz fosse vazio, mas Daniel imaginava que a tentação de sacrificar os outros aspectos de uma relação a dois em favor do lado sexual nesse caso era algo quase impossível de resistir, já que Joana não primava pela profundidade de qualquer forma. E seu ex certamente valia a pena pelo físico apenas. Com o tempo, porém, Diego foi ficando próximo de ambos, embora sempre na posição de convidado daquela relação mais antiga, e quando Daniel se tornou vizinho de Joana passaram a se ver mais vezes do que nunca, criando um vínculo próprio.
Havia pouco tempo que tinha se mudado para aquele apartamento, e o rapaz ainda tinha problemas para se localizar mesmo à parca luz da noite quando chegava de alguma saída, sem luz alguma era pior. Diego tinha um braço ao redor de sua cintura, carregando-o com cuidado pela casa, porém com a força costumeira de seus gestos enquanto Daniel mantinha o braço firme nos ombros largos e rígidos do amigo. Ao entrar em seu quarto, porém, o rapaz podia se localizar até de costas, mas continuou seguro ao amigo por mais um tempo. A moleza no corpo não diminuía, o que era bom, já que ele respondia ao menor dos estímulos táteis prontamente, passando por situações embaraçosas com facilidade.
Diego guiou-o até a beirada da cama, onde Daniel, exímio conhecedor de seu corpo e seu espaço, foi se assentando lentamente, com as mãos no corpo do amigo seguindo a altura de seus ombros por todo o tronco do rapaz, atingindo a calça, num fingimento perfeito que teve como trilha sonora o aumento da velocidade da respiração de Diego. Podia continuar se quisesse, e demonstrou/confirmou isso esticando os polegares ao encontro um do outro logo ao ultrapassar a linha da cintura e sentir o início da ereção do amigo, que congelou a respiração apenas para continuar mais leve quando Daniel continuou o trajeto, sentou em sua cama e deitou sem dizer uma palavra, segurando um riso ao imaginar como estaria o rosto de seu amigo enquanto não ouvia um movimento dentro do quarto.
Mas a falta de movimento continuou por minutos longos, apenas a respiração conhecida continuava no quarto. Ora, porquê não?
- Mas hein, tem como ligar o som rapidão?
Passos do seu lado fecharam a porta e foram até o criado mudo ao lado da cama, buscando o fio da tomada do som e o interruptor. Daniel cheirou a gola de sua camisa, que ainda tinha um cheiro forte do baseado, tirando quase num ímpeto e deitando novamente. Um clique e o som do Deerhunter começou de onde havia parado antes de apagão.
- Come for me. Cover me…
Um peso ao seu lado da cama fez seu braço deslizar de sua camisa para uma coxa apertada contra um jeans, sem repousar muito tempo, movendo para frente e para trás. Um movimento maior do corpo de Diego e antes do segundo refrão o corpo de Daniel estava afundado na cama sob o do amigo, que já havia tirado a camisa em algum momento, mas só agora tornou isso do conhecimento do rapaz. Suas pernas receberam as do outro entre elas, pressionando a cintura do ex de sua amiga e trazendo junto de si uma ereção completa agora, alimentando a sua própria pelas pulsações fora do ritmo da música, enquanto seus lábios se encarregavam de concordar com o ritmo desta no contato uns com os outros.
A surpresa da iniciativa de Diego incendiava o corpo do rapaz mais que o contato com a pele ligeiramente quente deste contra a sua. O rapaz por cima movia as mãos pelos braços do outro, segurando com força e levando até a cabeceira da cama, sem desgrudar os lábios do outro, segurando suas mãos nas grades da cabeceira com as dele, para mover novamente por seus braços, enquanto beijava Daniel com força. Após meses de contato, semanas de contato quase diário, o rapaz nunca havia tido um sinal de que Diego pudesse realmente desejar outro homem, e sempre fora muito observador quanto a isso. Mas a força que os lábios do outro imprimiam nos seus denotava um desejo carnal real muito mais sincero que o volume no meio de suas pernas. É muito fácil levantar o pau de um homem, mais difícil é fazer algum coisa quanto a isso.
E muitas coisas estavam sendo feitas, enquanto os lábios de Diego seguiam dos de Daniel para seu queixo e pescoço, perturbando a respiração até então controlada deste, que sentiu a intensidade cair novamente. Suas mãos então ficaram livres, e uma mão apenas foi para o cós de sua calça, segurado com força, aberto devagar com uma única mão, que com acesso livre a cueca, começou a deslizar sobre o desenho nítido de seu pênis com força, apenas a palma aberta, enquanto o outro se movia por algum motivo que logo foi esclarecido.
Novamente seu amigo se deitou sobre Daniel, respirando rápido a milímetros do rosto desse, o hálito limpo como poucas vezes um fumante tem a chance de ter, enquanto as mãos voltavam às suas, mas agora com um tecido, alguma camisa talvez, que Diego envolvia sobre os pulsos dele, até apertar por fim, prendendo os braços do rapaz na cama. Não apenas desejava, como desejava de uma forma ligeiramente perversa. Isso excitava ainda mais Daniel, que apertava a cintura do amigo com as pernas com força, deixando que esse soubesse dessa excitação.
As mãos de Diego se moveram por fim dos braços para o peito de Daniel, e dali para a barriga deste, chegando até a calça aberta, quando começaram a remove-la, tirando Diego da prisão de pernas que estava por instantes. Daniel agradeceu, pois no estado que estava até a cueca incomodava. Ouviu por fim o barulho da calça do amigo caindo no chão e um peso na cama fez com que sua energia voltasse, extinguindo a moleza do corpo. Um par de mãos removeu sua última peça de roupa com pressa, segurando seu pau com firmeza e deslizando para baixo, no que, novamente para sua surpresa, estava acompanhado de lábios firmes como os que estiveram agora a pouco em sua boca. Daniel já havia tido sua cota de idéias sobre isso sozinho no seu quarto, mas jamais imaginou que seu amigo é quem faria tudo de uma forma tão… altruísta.
- Bendita cegueira
O rapaz agora sentia o conforto da mão e da boca do outro envolvendo-o com uma alegria mórbida, não apenas pelo talento que seu amigo tinha revelado como pela idéia que se formava em sua cabeça de como Joana nunca desconfiou. Com certeza não era a primeira vez que Diego chupava um cara, a menos que ele tenha nascido para isso. Os movimentos tinham um ritmo próprio que desrespeitava a música atual, catártica. Havia ali um controle absoluto, mesmo com uma energia quase incontida em dar prazer ao garoto amarrado. Enquanto a língua dialogava com o corpo de seu pênis calmamente, mãos e lábios insistiam em pressionar, puxar, tragando o rapaz cada vez mais para seu amigo. Não demorou muito para sentir que iria gozar, avisando o amigo com gemidos cada vez mais altos e rítmicos. Mas esse, nova surpresa, manteve os lábios mesmo após os primeiros jorros, alternando entre tirar e pôr o pênis de Daniel de sua boca, sem nunca tirar as mãos, apagando com sua boca e língua qualquer vestígio do que houve, deixando o novo cego com uma expressão de choque no rosto.
Um movimento na cama e passos alertaram do que ocorreu em seguida, quando mãos molhadas desamarraram suas próprias mãos e acariciaram sua cabeça molhada de suor. O cd ainda tocava suas últimas faixas indiferente ao que tinha acontecido, quando a porta se abriu e uma corrente de ar começou a liberar o cheiro de sexo dentro do quarto. Os passos trouxeram as roupas do chão para sua cama, e quando se preparava para buscá-las, um último contato de lábios trouxe o gosto de sua vitória e surpresa para si, antes que pudesse começar a se vestir.
Não dava pra saber que horas eram. Sabia que estava em sua cama após uma exaustiva noite de hospitais e pouco a se fazer além de esperar. A venda em seus olhos incomodava um tanto, o suficiente para que, ao ouvir a porta se fechar e passos no corredor, Daniel tirasse-a por um tempo. Ainda estava mergulhado na escuridão e não sabia se voltaria a ver tão cedo, mas o costume com aquela geografia particular de seu quarto não atrapalhou a caminhada inquieta até a escrivaninha. Estava limpa, nem sinal de beck ou arma.
- Jô, te amo.
- É bom ouvir isso de vez em quando.
Da cama pôde ouvir o clique do isqueiro e o odor familiar de carlton crema. Guiado pelas coordenadas conhecidas, estendeu a mão pedindo um para si enquanto vestia a cueca.
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Daniel é uma incursão num rumo mais familiar, embora ligeiramente esvaído do que costumo escrever. A idéia inicial é de um conto pornô, mas sempre começo a escrever sem saber onde vou chegar. Vamos ver, né?