Depois de dois dias dormindo, comendo, ouvindo música e dormindo, a falta de uma melhora perturbava Daniel tanto quanto a falta de contato com Joana. Ficar dias sem ver estava sendo sim gratificante a principio, especialmente pela folga que ganhara das pessoas que antes cobravam dele coisas que férias não poderia ajudar a conseguir. A certeza de seu quadro ser temporário extinguia qualquer preocupação. Não era o caso de Joana.
O cigarro que ela deu ao garoto nem tinha terminado quando a porta do seu quarto se abriu e fechou atrás dele, revelando um silêncio assim que o cd terminara de tocar, sinal de que a garota não mais estava mais no quarto. Diego voltou poucos minutos depois, trazendo consigo o cheiro do xampu de sua mãe.
- Ótimo, ela vai saber que houve algo.
- Quem?
- Minha mãe.
- Ah…
O tom de conforto intrigou Daniel. Mas o cansaço que sentia gritava mais alto que essa pequena semente de dúvida. Seu amigo deitou-o na cama com cuidado, no local ainda aquecido. Mal colocou a cabeça no travesseiro, porém, sentiu ao seu lado a cama afundar ao seu lado. Num impulso familiar, procurou cegamente a mão do seu amigo, em vão, já que esta parecia repousar em uma cruzada de braços. Ligeiramente envergonhado, pendeu a cabeça para o lado oposto ao de Diego e caiu no sono, para acordar sozinho horas depois.
- Quem deixou a janela aberta? Merda!
- Acordou filhote?
- Sim mãe.
- Diego falou que vai ta fora esse fim de semana, mas vem assim que puder. E a Joana, você viu ela por aí? Ela subiu com você e
- Achei que ela tivesse aqui. – falou sem disfarçar a surpresa.
- Não, quando eu cheguei tava só o Diego – uma pausa salivada – deitado… com você.
- …
- Ai, ai. Saudades de quando um peixe era um peixe.
Não era o momento para brincadeiras, e o silêncio que se seguiu cimentou o constrangimento de ambos, trazendo um barulho de arrasto no chão ao seu lado, do arrasto da janela e de passos até a porta, que permaneceu aberta. O sábado e domingo seguiram numa letargia lacerante para alguém cheio de coisas na cabeça, e foi com gratidão, até exagerada, que o rapaz recebeu Diego quando este voltou da rave. Seu amigo notou isso, pesando a mão na cordialidade da voz, notada pelo rapaz de venda. Sutileza não é um forte de habitantes de metrópoles. Mas após um pouco de conversa como se nada tivesse ocorrido, a coisa fluiu naturalmente. Talvez o silêncio fosse um preço a se pagar no momento, mas com a cegueira, a mudez certamente não era bem vinda. Daniel se levantou e foi até a escrivaninha fingindo buscar seu beck, que sabia não estar lá.
- Sabe onde a Joana guardou a maconha?
- Sei, quer que eu bole?
Não. Queria saber de Joana, não do beck.
- Sim.
Diego era muito geração saúde, ou seja, só se drogava com remédios. Só começou a fumar quando soube que maconha era usada em tratamentos de câncer para aliviar sintomas da quimio, mas acabou se revelando um belo paciente. Sua vaidade porém ajudava a disfarçar os efeitos colaterais do uso. E após o término do beck, o som do zíper e do spray, além do aroma cítrico, terminaram o ritual com um certo asseamento ao qual o rapaz ainda não estava acostumado.
- Tem algum compromisso daqui?
- Facu, né? Segunda. – a voz estava mais próxima e mais grave.
- Esqueci que só eu tô de férias ainda.
- Inveja. – a voz estava em sua nuca agora.
- Inveja nada, muito tempo livre. – a cueca começava a incomodar, mas havia o silêncio de Joana incomodando mais. A mensagem…
- Aproveita, moleque – uma mão envolveu sua cintura, lábios falando com seus cabelos e não com seu ouvido.
- Muito, sem poder ver nada… – o tom censurador não saiu nem perto do que tinha calculado, saiu bem mais ferino.
- Quem falou em ver. – a voz agora estava em seu ouvido e mão da cintura desceu alguns degraus, denunciando a verdade. Daniel estava gostando mais do que queria. E isso agradou Diego, que deixou o rapaz sentir seu agrado aumentando.
- Mas eu quero ver a Joana, saber se tá tudo bem com ela.
Diego se afastou como se tivesse tomado um choque. Passos lentos terminaram com o barulho do colchão afundando. Daniel sabia que apesar de ex, o outro ainda tinha um vínculo forte com a garota, mais um vínculo paternalista que qualquer outro, embora ainda demonstrasse algum traço da faceta namorado quando estava muito bêbado.Sabia pouco da relação dos dois, já que construíra uma própria com cada um, e algumas coisas sobre essa dinâmica ainda estavam mal explicadas, embora soubesse que podia tirar essas dúvidas a qualquer momento. Faltava apenas se interessar de verdade por isso.
- Ela não apareceu?
- Não. E…
- Qual era o carro do pai dela?
- Você sabe?
- Claro que sei, nós namoramos quase um ano.
- Eu só achei que…
- QUAL O CARRO, PORRA?
- O siena que ela tinha e vendeu.
- Merda. – algo foi chutado com violência – MERDA! Eu vou no ap dela.
- Eu vou junto.
- Você fica! Você tem que se cuidar pra ficar bom logo.
Estava cego, mas não inválido! Quis ir até o amigo, mas esse se moveu rapidamente e antes que chegasse à porta do quarto, ouviu a porta do apartamento se abrir e a irritação dentro de si incendiou. Sabia que poderia chegar sozinho, mas não iria ajudar muito perder uns cinco minutos com a espera das notícias do amigo. Mas os cinco minutos se prolongaram por mais de cinqüenta até que o rapaz tirou o celular do bolso e discou o número do amigo pela memória visual. A chamada caiu na caixa de mensagens cinco vezes antes que a preocupação batesse forte. E como sempre lidava com isso, deitou na cama esperando notícias do amigo até cair no sono.
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Daniel é uma incursão num rumo mais familiar, embora ligeiramente esvaído do que costumo escrever. A idéia inicial é de um conto pornô, mas sempre começo a escrever sem saber onde vou chegar. Vamos ver, né?