Frugal em vagas. (Pt. IV)

A chuva já havia enviado sua mensagem para as crianças: Se quisessem o aniversário da baixinha, precisariam de um pouco mais de energia que a empenhada até agora. Após 7 dias, não havia porque se animar pela redução da intensidade, mesmo porque não havia certeza se a falta de vento tornava a chuva mais fraca, já que o que importava era a água, que corria livre pelas ruas, caindo no mar, que engolia preguiçosamente o litoral com suas vagas.

Foi nesse dia que o mais esperto convenceu o mais alto que a água da praia estaria mais doce, no dia do teste do barquinho. Sim, em apenas uma semana, com cordas, panos e móveis abandonados, caixas de frutas, metais do que antes eram fruteiras, agora jazia um barquinho. Sem ter certeza se seu Frankenstein sabia nadar, as crianças passaram a tarde arrumando uma forma de levar (por campinhos de areia, estradas de terra, alamedas alagadas, rodovias vazias) sua balsa até as águas do mar. Nesse ínterim, cresceram todo tipo de apostas bobas, filhas da primeira: vai dar certo?

- Eu digo que sim.

- Eu digo que não.

- Eu digo que não aposto.

E foi assim que o mais alto mediou a disputa do expansivo e do mais esperto. As copas das árvores gotejavam com força extra sobre a estrutura tosca que deveria flutuar, melodicamente acuando as crianças. E num campinho já completamente alagado, no três, puseram o barco na piscina onde antes jogavam futebol. E a flutuação plácida do barquinho deixou claro que o mais esperto apenas queria se divertir com um pouco de tensão nos amigos, colocada pelo medo do fracasso. Ou não.

Vendo que essa caixa de Pandora era um Jack in the Box, o expansivo e o mais alto passaram o resto da travessia entrando em todo tipo de aposta que os fizessem parar a caminhada sempre que surgisse a chance. E no caminho da alameda, perguntaram se o barco seguiria com a corrente que descia direto no mar. Uma ladeira como aquelas poderia significar o fim do barco nas portas do mar, mas a importância disso era crucial naquele momento. Velocidade.

- Eu digo que sim.

- Eu digo que não.

E observando do topo da ladeira, no meio da alameda, tiraram o barquinho da calçada e pousaram sobre a corrente de água doce indo em direção ao mar nas duas faixas da pista. O expansivo subiu a bordo e a barca ainda flutuava na pista. Subiu o mais esperto e ela ainda flutuava. O mais alto, num movimento rápido, subiu na barca sem que ela fosse sem ele. Mas ela estancou no fundo de asfalto. E com um placar empatado, seguiram em direção à avenida litorânea, o mais esperto satisfeito de voltar ao topo no quesito apostas.

Mas o empate não perduraria. A baixinha já estava ensopada quando chegaram na fina faixa de areia que resistia às vagas com a barca, e mesmo que a barca não estivesse embrulhada pra presente, sabia que era a dona e merecedora daquele esforço. Acalorada pela surpresa, abraçou cada um com força, ansiosa para testar o brinquedo. Com o parco vento que corria ali, as ondas não quebraria forte nem mesmo contra uma prancha, um botezinho enfrentaria com mais ímpeto as águas que um quebra-gelo navegando pelo ártico. E apesar do esforço empregado para arrastar a embarcação pela areia molhada, a baixinha subiu fácil no bote que flutuava pelas águas. E quando os amigos subiram, a baixinha deixou as águas cuidarem do trajeto do barco sozinha.

- Mais pra quê?

- Se a água chegar alto na ilha, a gente vai pra mais alto ainda.

E observando a cascata na ladeira, essa visão parecia muito distante. Seria preciso muita água pro mar ir tão longe. E o mar ficaria doce. E assim, na cabeça do mais esperto, surgiu a idéia, onde o alerta dos pais era claro: se a água estiver doce, teremos que ir para longe. Expansivo, alto e baixinha caçoaram, mas compraram a idéia de testar a água. Quem testaria foi tirado no palitinho, e quando o mais alto provou a água do mar, o morno amargou tão depressa quanto salgou, embora ele tenha escondido bem a careta.

- Qual o gosto?

- Gentil… pra gente.

————————————————————————————-——————————

Frugal em vagas é um wannabe conto, mas é um diário de um eu presente sobre o passado. Um conto de férias. Ao todo ando matutando em dois, um mais denso. E numa noite de solidão e insônia ouvindo algumas músicas, surgiram as imagens de Frugal em vagas. Deve ser o meu texto mais frívolo já feito, mas a idéia é a leveza. Hope you enjoy.

————————————————————————————-——————————

Frugal em vagas é um wannabe conto, mas é um diário de um eu presente sobre o passado. Um conto de férias. Ao todo ando matutando em dois, um mais denso. E numa noite de solidão e insônia ouvindo algumas músicas, surgiram as imagens de Frugal em vagas. Deve ser o meu texto mais frívolo já feito, mas a idéia é a leveza. Hope you enjoy.

————————————————————————————-——————————

Frugal em vagas é um wannabe conto, mas é um diário de um eu presente sobre o passado. Um conto de férias. Ao todo ando matutando em dois, um mais denso. E numa noite de solidão e insônia ouvindo algumas músicas, surgiram as imagens de Frugal em vagas. Deve ser o meu texto mais frívolo já feito, mas a idéia é a leveza. Hope you enjoy.

Deixe uma resposta