Tem algo fantástico sobre a escrita que escapa dos leitores comuns. Ainda tô aprendendo o porquê, mas o processo da escrita é algo que envolve uma permissividade. Você deve deixar que o texto fale por si só, e nesse meio ele irá te trair. Você pode ser um Camões e ter o controle pleno das ferramentas, mas a escrita possui uma alma que não pode ser contida, uma alma que dá uma voz àquelas palavras corriqueiras e fala além da voz do autor, além da voz na cabeça de cada leitor (quem nunca foi discutir um livro com alguém e notou que o outro havia notado coisas que você ñ notou? Isso é leitura.), uma voz mais antiga.
Bem, é fato de que essa traição da escrita não necessariamente será algo negativo (e na verdade nem deve, mas deixa pra frente). O fantástico é que a traição do texto enriquece ele com uma contradição que pode dar uma língua nova ao texto inteiro. Afinal, hoje mesmo entreguei um texto que deveria falar da infância numa aulae, surpreso, a professora queria saber se era mesmo infância. O foco do texto para mim, que escrevi, era narrar a vida de alguém de 12. A professora achou que havia um monólogo. E enquanto o texto permanece em aberto, ora descritivo, ora realmente dialogado (existe a primeira e a terceira num processo meio Graciliano-ish) em primeira pessoa (eu + eu não é bem um nós), revi muitos textos antigos como leitor. E onde foi parar a carga emocional que moveu meus braços? A tristeza hoje soa como raiva, a desolação soa como impetuosidade, e isso, deixando de lado a técnica, é dizer que o implosivo se tornou explosivo quando saí do papel de criador para o de consumidor de mim mesmo.
E o texto me traiu? Sim. E a tensão? Descobrir como conseguir sair do implosivo quando criador e me tornar explosivo. Já a postura de consumidor, essa pode ser o que bem entender. Minha antena anda fragilizada e é nela que devo concentrar esforços nesse aspecto. E que venha o divã.

